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Entrevistas +4

"Parafilias", de Alexandre Marques Rodrigues

11/11/2015
"Parafilias", de Alexandre Marques Rodrigues

Por Álvaro da Costa Silva

São 24 poderosos contos, e que têm o tamanho exato da descoberta. A descoberta de um autor, Alexandre Marques Rodrigues, nascido em Santos (SP) em 1979, formado em psicologia, leitor voraz, que venceu o Prêmio Sesc de Literatura de 2014 com o livro Parafilias, editado pela Record. Um escritor que gostaria de saber como Anna Karenina fazia amor e que considera Dostoievski mais importante para se entender o homem do que Jung.

É também a descoberta de como cenas de sexo, narradas de maneira nada bem comportadas, podem servir para a reflexão. O nome do livro – que remete a um distúrbio psíquico – já faz menção desde o início, como o autor nota nesta entrevista, a algo que acontece além ou fora do amor, e também do sexo. Trata-se de como a literatura de Marques Rodrigues enxerga o mundo. De modo originalíssimo, num estilo fortemente pessoal.

Livros de contos podem ou não ter unidade interna. Parafilias tem, ao tratar da solidão humana e do erotismo. Essa foi sua intenção desde o início? Pergunto se os contos foram pensados para um único livro ou foram surgindo ao acaso e você percebeu a unidade entre eles.

Parafilias foi escrito para ser um livro fechado. Isso quer dizer que todos os contos foram pensados buscando uma unidade, uma coesão: eu queria um livro de contos e não apenas uma coletânea. Assim, as histórias dialogam entre si, se complementam, fazem referência ao que já foi dito ou ao que ainda está por vir. É claro que as narrativas de Parafilias podem ser lidas de forma independente, ou fora de ordem; mas acredito que o leitor que seguir do primeiro ao último conto terá uma experiência diferente e mais completa sobre o livro.

Há uma antiga discussão entre escritores sobre a dificuldade de acertar a mão nas cenas de sexo. Existe até uma brincadeira “séria”, o Bad Sex in FictionAward, que distinguiu autores como Tom Wolf e Norman Mailler. Como você vê a questão?

O sexo em Parafilias aparece como um caminho, não como um lugar a que se quer chegar. Não era minha intenção escrever um livro erótico, muito menos pornográfico. Talvez por não estar focado nessa questão, o sexo fluiu muito naturalmente em minha escrita. De qualquer forma, penso que, ao se tratar de sexo na literatura, não se pode ter medo de chamar as coisas pelos nomes que têm cotidianamente. Afinal, o leitor está sendo confrontado com uma cena que deve remetê-lo à vida tal como ele a experimenta. É sempre desastroso quando temos a impressão de que estamos lendo um manual de educação sexual, ou um artigo técnico sobre reprodução humana e não uma obra literária. Penso que descrever o sexo de modo comportado, com termos emprestados da anatomia, nunca dá certo.

Na orelha, Ronaldo Bressane cita Hilda Hilst, Sérgio Sant’Anna, Reinaldo Moraes, Rubem Fonseca como cultores de “epifanias do sexo”. Você se sente ligado ao conceito? E ligados a estes escritores na abordagem do sexo? Quais seriam outros?

Não tenho certeza se estou ligado a esses escritores na questão dessa abordagem, mas é claro que é elogioso ter o que escrevo relacionado a Rubem Fonseca ou Hilda Hilst, por exemplo. Gosto muito de como o sexo pode não significar exatamente sexo. Dessa forma, faz muito sentido em minha literatura que o sexo sirva para descobertas, reflexões, para qualquer coisa alheia a ele mesmo. O nome do livro, Parafilias, já faz desde o início menção, ou remete a algo que acontece além ou fora do amor, e também do sexo.

Cite uma cena de sexo que você considera “bem resolvida” na literatura mundial.

Não me ocorre no momento nenhuma cena, mesmo que “mal resolvida”. Entendo que o sexo está tão imbricado na vida, portanto na literatura, que é difícil destacar do contexto de um livro partes que tenham me marcado pela questão sexual ali presente. No entanto, há uma cena que eu às vezes tento imaginar, mas que não foi escrita. Sinto muita pena que, em Anna Karenina, Tolstói não tenha apresentado ao leitor o sexo entre a protagonista e o amante, ou mesmo entre ela e o marido. Seria uma ótima forma de conhecer, de se aprofundar na personagem e de entender um pouco mais a própria história do romance. Mas, é claro, Tolstói nunca escreveria isso.

Nos contos, você desmonta tempos e cenas. O uso dos diálogos faz avançar a narrativa e, ao mesmo tempo, a desconstrói. Qual a sua teoria do conto ou relato curto?

Eu entendo que o conto é uma forma literária mais difícil do que o romance. Enquanto o romance é maleável, pode abranger desde a poesia até o próprio conto, o relato curto exige mais perícia do escritor, costuma ser uma tarefa mais complicada. É, por exemplo, mais difícil ser inovador em um conto do que em um romance. Não há espaço para erros, para dúvidas em uma narrativa de poucas páginas.Acredito, portanto, que o conto, enquanto forma literária, seja um desafio e ainda espere por novas soluções, ou transformações. Afinal, Tchekhov morreu em 1904.

Sem ser um livro que aborda a “doença da literatura”, tema de alguns escritores contemporâneos, muitas obras e autores são citados nos contos. O primeiro relato intitula-se “Livros” e logo na primeira linha aparece o nome de Onetti, o mestre uruguaio. Em “Quartos”, repassa-se a literatura russa. Houve essa intenção deliberada ou a situação é inescapável?

A presença da literatura dentro do que escrevo é proposital. No caso específico de “Quartos”, conto de Parafilias, a ideia era usar a literatura não como escape, mas como vingança contra o mundo pragmático e cotidiano. No meu entendimento, as artes, e a literatura entre elas, são caracterizadas sobretudo por sua inutilidade, por sua falta de uma finalidade prática. Para que serve um quadro, por exemplo, ou para que serve um romance? Pode-se dizer que um quadro serve para decorar e que um romance serve para entreter, mas não é verdade; há muitos quadros que ninguém penduraria na sala de casa, assim como muitos romances passam longe de ser mero entretenimento. Assim, a arte, e também a literatura, serve não apenas como resposta ao mundo mecanicista, mas como retaliação ao pragmatismo.

Há também algumas reflexões sobre psicanálise, música, artes plásticas, embora a maioria dos personagens não tenha um perfil “intelectual”. O ensaio dentro da ficção é, hoje, uma necessidade? Ou é, ao menos, para você?

Não considero o ensaio uma necessidade para a ficção atual, muito menos para mim pessoalmente. A literatura se manterá e sobreviverá apenas como literatura, sem precisar fazer pactos ou alianças. Se meus personagens não se encaixam no conceito de “intelectual” é porque não o são. Não penso que ler Proust, ou ouvir Bartók coloque alguém em uma categoria superior, ou inferior; não é preciso ser um intelectual para fazer isso. Os personagens poderiam ter outras referências musicais e literárias, ou não ter nenhuma, e ainda assim passariam pelos mesmos conflitos, viveriam as mesmas questões. A literatura trata sobretudo da vida.

Em muitos dos relatos, os personagens não têm nomes. Surgem como “ele”, “ela”, “eles”. Já em que alguns outros, eles têm nomes. Qual a diferença de tratamento?

Essa é uma questão complicada. Muitas vezes, devido ao número de personagens, é preciso que eles ganhem nomes, para que se possa entender mais claramente o que está sendo contado. Mas há momentos em que a narrativa não exige que eles sejam nomeados. Então se pode aproveitar e expandir a ilusão de que aquelas vidas ali descritas poderiam ser a vida de qualquer um, que no genérico “ele” ou “ela” cabe o leitor ou os personagens do seu dia a dia. Fica assim facilitada a grande experiência da literatura, tanto para escritores como para leitores: testar várias formas possíveis de ser, de ocupar o mundo, de passar pela vida.

Você usa a expressão “autoajuda gramatical”. Coexistindo com a guerra de sexos há uma guerra de palavras no livro. Concorda?

Não penso que há uma guerra de sexos no livro. Existem ali conflitos de pessoas, que vão além do gênero. Também não enxergo uma guerra de palavras nas páginas de Parafilias. As histórias que existem para ser contadas são finitas, de modo que cabe ao escritor, muitas vezes, trabalhar mais a forma como contar do que exatamente o que vai ser contado. Sob esse aspecto pode ser que tenha havido uma guerra, uma vez que escrever, ao menos para mim, é um embate longo e por vezes desesperador.

Até que ponto sua formação em psicologia completa o escritor?

Eu costumo dizer que minha formação de psicólogo serviu apenas para poder rir de Freud de modo mais fundamentado. Mas não é verdade. Trago da psicologia principalmente o olhar, o aprendizado de narrar as coisas como elas se apresentam, não como eu as interpreto. É importante para o escritor descrever, narrar e deixar ao leitor o julgamento, a interpretação, o entendimento pessoal do que foi escrito. Fora isso, não há muitos outros créditos que eu possa dar à psicologia; Dostoievski é mais importante para se entender o homem do que Jung, por exemplo.

O nome do seu blog, mantido desde 2010, é Ler até Escrever. É assim que se faz? Ou, no seu caso, funcionou assim? Como é o blog?

O blog é um lugar onde estão guardadas impressões de minhas leituras, não de forma técnica ou com a finalidade de fazer resenhas literárias, mas como algo bastante pessoal. Escrever, no meu caso, nasceu realmente de minhas leituras. Houve um momento em que eu tive a arrogância de achar que poderia também fazer algo como aquilo que estava lendo. É claro que não é tão simples. Eu precisei escrever muito e rasgar muito papel para ficar satisfeito, para ter um livro que eu pudesse sentir que merecia ser publicado. Assim, eu como escritor devo muito ao leitor que sou.

Parafilias ganhou o Prêmio Sesc de Contos de 2014 e recebeu boas críticas. Está indicado ao Prêmio Jabuti. Você contava com a repercussão favorável?

Ter o reconhecimento de um trabalho é algo muito bom, mas não espero por isso quando escrevo. Escrever é uma atividade que tem sido inevitável em minha vida. Eu escreveria ainda que não fosse publicado, ou sem qualquer premiação.

O que o leitor pode esperar do escritor Alexandre Marques Rodrigues para o futuro? Mais um livro de contos? Um romance? Ensaios? Quer voltar a escrever sobre sexo? Ou já cansou?

Eu estou sempre escrevendo. Mesmo quando estou cansado de um projeto, descanso escrevendo outro. No final deste ano entrego um romance para a Record. É um livro que nasceu enquanto eu compunha o Parafilias. Não me considero um escritor que escreva sobre sexo, mas neste novo livro o sexo também está presente, aparece ali com a mesma crueza. Como um aspecto bastante importante da vida humana, não há como contornar o assunto, deixar o sexo fora da literatura. A forma como os personagens fazem ou lidam com o sexo pode dizer muito sobre cada um deles.