A mensagem de empoderamento feminino foi um dos pontos altos do megashow da Shakira em Copacabana, no último sábado. Num determinado momento, a Loba colombiana fez referência a uma autora que ela admira e disparou: "Uma mulher sozinha é muito vulnerável. Uma mulher acompanhada de outras mulheres é invencível". A frase à qual a cantora se referia é de um livro de Isabel Allende, uma das maiores autoras latino-americanas.
Confira abaixo o trecho original de Mulheres de minha alma (Ed. Bertrand Brasil), obra não-ficcional na qual Isabel reflete sobre o feminismo e sua própria carreira:
"Ser mulher significa viver com medo. Toda mulher leva impresso no DNA o temor ao macho. Ela pensa duas vezes antes de fazer algo tão normal como passar pela frente de um grupo de homens ociosos. Em lugares supostamente seguros, como seria, por exemplo, o campus de uma universidade ou uma instituição militar, há programas para ensinar as mulheres a evitar situações de risco, partindo do pressuposto de que, se for atacada, a culpa é sua. Estava no lugar errado, na hora errada. Não se espera que os homens mudem de comportamento, mas se permite e até se louva a agressão sexual como direito do homem e característica da masculinidade. Felizmente, isso está mudando de forma rápida, pelo menos nos países do primeiro mundo, graças ao #MeToo e a outras iniciativas feministas.
Uma expressão extrema do que eu disse acima são as mulheres que vivem enterradas em burcas que as cobrem da cabeça aos pés, para não provocar desejo nos homens, que aparentemente sentem impulsos bestiais quando veem alguns centímetros de pele feminina ou de uma meia. Quer dizer, a mulher é castigada pela fraqueza ou pela perversão do homem. É tão grande o medo do homem que muitas mulheres defendem o uso da burca porque se sentem invisíveis, portanto mais seguras.
Dizia o escritor Eduardo Galeano que “ao fim e ao cabo, o medo da mulher à violência do homem é o espelho do medo do homem à mulher sem medo”. Soa bem, mas o conceito me parece confuso. Como não ter medo, se o mundo conspira para nos assustar? Mulheres sem medo há muito poucas, exceto quando nos agrupamos, então nos sentimos invencíveis.
Qual é a raiz dessa mistura explosiva de desejo e ódio em relação às mulheres? Por que essa agressão e esse assédio não são considerados um problema de direito civil ou direito humano? Por que são silenciados? Por que não há uma guerra à violência contra a mulher, tal como declaram guerra às drogas, ao terrorismo ou ao crime? A resposta é óbvia: a violência e o medo são instrumentos de controle."












