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Record lança edição comemorativa de Demian, de Hermann Hesse

08/12/2015
Record lança edição comemorativa de Demian, de Hermann Hesse

Publicado pela primeira vez no Brasil em 1965, este clássico romance de formação é tido como um divisor de águas na trajetória de Herman Hesse, prêmio Nobel de Literatura em 1946. A partir dos questionamentos do jovem Emil Sinclair sobre a humanidade, com suas contradições e dualidades, Hesse descreve o processo de busca do indivíduo pela realização interior e pelo autoconhecimento. É com ele que o autor inicia o caminho que vai desaguar em sua obra-prima, O lobo da estepe, cujo protagonista, Harry Haller, é considerado o Sinclair na maturidade.

Emil Sinclair é um menino que vê o mundo a partir da separação entre a sua casa (o paraíso) e a rua (o inferno). Dividido entre a luta contra os vícios e a manutenção das virtudes, ele conhece Max Demian, um colega de escola que parece bem mais velho. Com Demian, Sinclair começa a vislumbrar a complexidade e as múltiplas visões sobre a vida. Pistórius, um organista que estudou para ser padre e que ele conhece quando muda de cidade para estudar, também será essencial em sua busca. Admitir que o bem e o mal convivem num só ser é o primeiro passo para a descoberta de si mesmo e a sua interação com os outros. “O conflito entre a dualidade ‘mundo luminoso’ (ideal) e ‘mundo sombrio’ (real) pelo qual Sinclair tem de passar para o encontro ou a edificação de sua personalidade é o tema central do livro”, escreve o tradutor Ivo Barroso no posfácio da obra.

“Ainda mais que uma história ou romance de educação é o relato de um processo de deseducação, ou preferindo-se, de reeducação, de laborioso apagar das pegadas que o puritanismo educacional deixa impressas na alma adolescente: a timidez, a humildade, o alheamento — armas obsoletas com a hostilidade do mundo real — e que conduzem, mais tarde, inapelavelmente à solidão e à inadaptabilidade, à surda revolta e ao amargo constrangimento”, continua Barroso, que nota ainda a influência das ideias de Sigmund Freud na obra, notadamente marcada pelo Complexo de Édipo. Afinal, Sinclair nutre pela mãe de Demian, seu mestre, um amor platônico. Leia o texto completo de Barroso AQUI.

ORELHA:

Demian, publicado em 1919, não é apenas o extraordinário divisor de águas da trajetória do escritor alemão Hermann Hesse (1877-1962). Trata-se de uma obra que “com precisão assustadora, acertou em cheio o nervo da época, arrastando toda uma juventude para um encantamento agradecido” – na definição dada, num ensaio de 1947, por ninguém menos do que Thomas Mann, o monumento maior da literatura germânica do século 20, Prêmio Nobel de 1929.

Curiosamente, a divisão está na base do livro. Não por acaso, o primeiro capítulo se intitula “Dois mundos”. Em um deles, explica o narrador, Emil Sinclair, os atributos eram “a claridade, as mãos lavadas, os bons costumes” – todos girando na órbita do sol representado por seus pais. No outro universo ficavam a escuridão, a sujeira, “homens embriagados e mulheres escandalosas”. A particularidade, descobre Sinclair, “é que ambos se confinavam”.

Com o desenvolvimento da trama, logo se percebe que o encontro desses territórios abrange outras dualidades: o consciente e o inconsciente; o masculino e o feminino; o coletivo e o individual. O conflito é inevitável. “Quem quiser nascer, tem de destruir o mundo”, diz a Emil Sinclair, em um bilhete, Max Demian, seu colega de colégio – a amizade entre eles, cheia de ambiguidades, dá corpo à narrativa.

Sinclair quer nascer. O que isso significa? “A vida de todo ser humano é um caminho em direção a si mesmo”, observa ele. Assim, este “romance de educação” (Erziehungsroman), de “formação” (Bildungsroman) se constrói numa rota que leva o narrador ao seu próprio encontro. Não é simples. “Nada repugna tanto ao homem do que seguir pelo caminho que o conduz a si mesmo!”, sublinha o protagonista.

A frase revela mais sobre Hermann Hesse, e a fase que atravessava ao conceber a presente obra – instalado na Suíça, país que adotaria como cidadão –, do que se poderia supor. Ficcionista conhecido, àquela altura, por suas vendas expressivas, o futuro Nobel (1946) publicou Demian sob o pseudônimo de Emil Sinclair. “Ao lê-lo, pensei em Hesse, mas sem suspeitar que poderia ser o autor daquele livro (...). Meu espanto transformou-se em respeito quando, dois anos mais tarde, soube que Emil Sinclair era Hermann Hesse, mas um novo Hermann Hesse, que começa a se aproximar de si mesmo”, anotou o escritor austríaco Stefan Zweig em um estudo de 1923.

O que se passa com Sinclair traduz a reverência que Hesse admitia em relação à psicanálise, ou, melhor ainda, à psicologia analítica (Carl Gustav Jung, para além de Sigmund Freud). Sob o impacto da Primeira Guerra, os nervos em frangalhos, o casamento arruinado, ele recorreu a um analista junguiano, J. B. Lang, e, em um segundo momento, a Jung em pessoa. O processo que o narrador de Demian vivencia é, na terminologia analítica, o da individuação. Muitas de suas experiências refletem traços da biografia de Hermann Hesse (que se espalham também por outros personagens).

Depois de Demian, o estilo do autor iria se afirmar em livros como Sidarta (1922), O Lobo da Estepe (1927) e O Jogo das Contas de Vidro (1943). Desprestigiada por um período, revalorizada em seguida pelos movimentos pacifistas e libertários, a literatura de Hesse “em seus muitos planos, em sua concentração de problemas relativos ao Eu e ao mundo, iguala-se a poucas dentre as obras contemporâneas”, resumiu Thomas Mann naquele mesmo texto mencionado anteriormente. A de quem, por exemplo? A do irlandês James Joyce, atestava Mann – o que equivalia a citar a si próprio. (Rinaldo Gama)

TRECHOS:

“— Você afirmou certa vez — disse-me um dia — que a música lhe agradava por ser totalmente destituída de moralidade. Está certo. Mas o que importa é que você também não seja moralista. Não há por que comparar-se com os demais, e se a natureza o criou para morcego, não queira ser avestruz. Às vezes você se considera demasiado esquisito e se reprova por seguir caminhos diversos dos da maioria. Deixe disso. Contemple o fogo, as nuvens e quando surgirem presságios e as vozes soarem em sua alma abandone-se a elas sem perguntar se isso convém ou é do gosto do senhor seu pai ou do professor ou de algum bom deus qualquer. Com isso só conseguimos perder-nos, entrar na escala burguesa e fossilizar-nos. Meu caro Sinclair, nosso deus se chama Abraxas e é deus e demônio a um só tempo; sintetiza em si o mundo luminoso e o obscuro. Abraxas nada tem a opor a qualquer de seus pensamentos e a qualquer de seus sonhos. Não se esqueça disso. Mas ele vai abandoná-lo quando você chegar a ser normal ou irrepreensível. Vai abandoná-lo em busca de outro cadinho onde possa macerar seus pensamentos.”

“De todos os meus sonhos, o obscuro sonho de amor era o mais fiel. Sonhava-o vez por outra, via-me entrando em casa, em cuja porta brilhavam as vivas cores do pássaro heráldico, e ao estender à minha mãe os braços, estreitava entre eles o corpo arrogante daquela outra mulher estranha, meio máscula e meio maternal, que me inspirava medo e desejo ao mesmo tempo. Esta foi a única de minhas intimidades que nunca cheguei a revelar ao meu amigo. Era meu canto secreto e meu refúgio.”

SOBRE O AUTOR

Hermann Hesse nasceu em Calw, na Alemanha, em 2 de julho de 1877. Começou a vida profissional como livreiro, mas idealizando uma carreira literária, que de fato iniciou muito cedo, aos 21 anos, quando publicou suas primeiras poesias. A chamada “primeira fase” do escritor se estende até Knulp (1915), produzindo nesse período romances de grande valor, como Peter Kamenzind (1904), Gertrud (1910) e Rosshalde (1914). Demian saiu logo depois da Primeira Guerra Mundial, em 1919. Em protesto contra o militarismo germânico, Hesse era então um residente permanente da Suíça e sem dúvida formava ao lado das maiores figuras da literatura em idioma alemão. A profunda humanidade e a penetrante filosofia que impregnam seus livros foi confirmada em obras-primas que produziu posteriormente, entre outras Sidarta (1922), O lobo da estepe (1927) e Narciso e Goldmund (1930), que com seus poemas, contos, e um considerável número de trabalhos de crítica valeram-lhe um lugar muito especial entre os pensadores contemporâneos. Em 1946 ganhou o Prêmio Nobel de Literatura. Hermann Hesse faleceu em 1962, pouco depois da passagem do seu 85º aniversário.