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Entrevistas +3

"Tenentes", de Pedro Doria

26/07/2016
"Tenentes", de Pedro Doria
Revolta dos 18 do Forte de Copacabana, Rio de Janeiro, 1922. Revolução e bombardeio da cidade de São Paulo, 1924. Origens da coluna Prestes, no Rio Grande do Sul, 1925. Três estados brasileiros, três momentos da história, três levantes contra o poder da República Velha e um só elo: o movimento tenentista. Em seu novo livro, “Tenentes – A guerra civil brasileira”, o jornalista Pedro Doria mergulha em três episódios que, segundo ele, são pouco estudados e deram origem à revolução de 1930, que levou Getúlio Vargas ao poder, e ao Golpe Militar de 1964, instaurando a ditadura que duraria mais de 20 anos no país. Com uma narrativa que se aproxima da crônica, mas em ritmo de thriller, Pedro Doria mergulha o leitor nos cenários em que se dão as batalhas. No Rio, em 1922, descobrimos que os tenentes aquartelados no Forte de Copacabana, que queriam depor o então presidente Arthur Bernardes, se comunicavam com as Forças Armadas do governo por meio de um telefone instalado num cabaré próximo. Mostra os bastidores e reuniões dos grandes nomes envolvidos, como, entre outros, os revoltosos Siqueira Campos, Eduardo Gomes e Luiz Carlos Prestes, mas também cenas de anônimos como a dona de casa que, no bairro da Penha, em São Paulo, serve um café a um soldado do governo e este, em seguida, mata o seu marido. No Rio Grande do Sul, onde os tenentes precisavam lidar com as rivalidades locais entre chimangos e maragatos, conta como a mãe octogenária de um coronel deu um pito no tenente Juarez Távora. Leia abaixo entrevista com o autor sobre a obra, sua estreia na Record. Você escreveu um livro sobre a história da fundação do Rio de Janeiro, o “1565”; sobre a história de Tiradentes e as revoluções que aconteciam no mundo no mesmo período, o “1789”; e agora faz um salto para o século XX, narrando a aventura dos tenentes revoltosos brasileiros. Como se deu a escolha desses temas? Há um padrão que busco: os momentos pelos quais o Brasil está prestes a passar por uma intensa transformação. É nessas horas que a cabeça das pessoas ferve, que ideias surgem. Quando você encontra um lugar selvagem, por exemplo, cheio de índios e mistérios e sua intenção é formar uma colônia, como você ocupa essa terra? O padre Manuel da Nóbrega tinha uma estratégia e fundou duas cidades – São Paulo e o Rio – para encarar o projeto. Ou, então, o que ocorre se você está sentado em cima da maior reserva de ouro do mundo e, ainda assim, não tem liberdade para decidir como aproveitar esta riqueza ou não se conforma de ser governado por pessoas que vivem noutro continente e compreendem mal seus problemas? Os inconfidentes imaginaram um jeito de resolver. O novo livro segue o mesmo princípio. No início da década de 1920, o Brasil já era uma República. Mas persistia com vícios monárquicos, uma elite intransponível, sem espaço para crescimento de quem vinha de fora. Muita gente não tinha dinheiro ao voto, havia muita pobreza. Eleições fraudadas. Nenhum direito trabalhista. O Brasil era uma panela de pressão. Como se resolve isso? Um grupo de jovens oficiais militares tinha algumas ideias sobre o que fazer. Puseram-nas em prática. De certa forma, nenhum outro grupo de pessoas é tão responsável pela cara do século 20 brasileiro do que eles.   Temos uma tradição de jornalistas escrevendo sobre a história do Brasil, com nomes consagrados e livros que se tornaram best-sellers. O seu estilo se aproxima muito da crônica, ao narrar os acontecimentos com foco nos personagens, nas paisagens, nos hábitos comuns, fazendo um mergulho, com o leitor, nas cenas de batalhas e em cenas comuns do cotidiano, como quando narra o atropelamento do então menino Deodoro da Fonseca, em 1921, no Rio. Neste sentido, como você define este trabalho, que se aproxima do jornalismo, mas tem o rigor do historiador? Conto histórias de não-ficção. Sou jornalista. Assim, o maior compromisso é com a fidelidade dos fatos e, a partir deles, como contar uma boa história. Isso quer dizer que estou preocupado em oferecer ao leitor um momento agradável. Ele vai se distrair. Se eu fizer tudo direito, ele vai querer virar a página para o capítulo seguinte. Ansioso. Isto posto, estou muito preocupado em fazê-lo compreender este mundo. O Rio de 1922, a São Paulo de 1924 ou o Rio Grande do Sul de 1925 não são como estes lugares hoje. Em que eram diferentes? A melhor maneira de mostrar é levando o leitor para passear por estas ruas, testemunhar pequenos momentos. Assim, de forma agradável, ele compreende em que mundo essa história se passa. Como tudo é permeado por ação, o conhecimento chega sem aporrinhar. Se a narrativa engaja e o leitor compreende em que mundo está, a partir daí escrever História fica muito simples. É contar como eram as pessoas importantes. Como se vestiam? Com o que se preocupavam? Como falavam? O que fizeram? O que as angustiava? De resto, os fatos ajudam numa história assim, com inacreditáveis batalhas nas ruas das principais cidades do país. No fim, o objetivo é só um: permitir que o leitor conheça um pouco mais da história do país de forma instigante.   No capítulo em que faz o elo entre o tenentismo brasileiro e o golpe de 1964, você lamenta que existam períodos da história praticamente desconhecidos, pouco estudados e cujo conteúdo passa ao largo das salas de aula no país. Acha que o seu livro contribui para popularizar, no sentido de tornar mais conhecidos mesmo, certos temas? Um dos exemplos, no livro, é quando você descreve a revolta de 1922, no Rio, e conta um detalhe da história que é pitoresco: os militares que tomaram o Forte de Copacabana se comunicavam com o governo por meio de um telefone instalado num cabaré próximo. Um tipo de informação saborosa que mostra, a um só tempo, a falta de planejamento dos revoltosos, os hábitos culturais de uma cidade que se expandia para a orla (ainda em obras), cujos moradores se conheciam pelo nome, e o tal do jeitinho brasileiro até na hora de se fazer uma revolução, não? Sim, livros de História escritos com essa ênfase na narrativa ajudam a popularizar o conhecimento. Mas, veja, não é só por conta dos escritores, sejam eles historiadores, jornalistas ou tenham outra formação. É porque o público leitor, no Brasil, anseia por conhecer nossa História. Esse anseio não vem à toa. A História que muitos de nós aprendemos na escola apostou na criação de mitos. Grandes nomes, sempre, muitos heróis. Pessoas sem defeitos. Alguns, educados como eu ao menos em parte durante a Ditadura, aprendemos uma História muito entrelaçada com patriotismo. O ensino melhorou a partir de finais dos anos 1980, a História ensinada passou a ser mais crítica. Ainda assim, de uma crítica parcial e muito concentrada no período da formação nacional. Aprendemos muito sobre o período colonial, um bocado sobre o Império, e quase nada sobre a República. Há muitos buracos no nosso conhecimento. Não é à toa que escrevo sobre História. Escrevo para aprender.   O livro faz uma importante reflexão sobre a presença dos militares na cena política brasileira, num momento em que o país vive uma grave crise política e de representação. Ao mesmo tempo em que muita gente recorre à ditadura de 1964 para dizer que a democracia hoje está sob perigo, não se pode fazer essa comparação levando-se em conta que hoje os militares não são mais protagonistas da ação política. O que mudou nas casernas do golpe militar de 1964 para cá? O momento que vivemos, hoje, não tem nada a ver com 1964 ou com qualquer outro período do século 20. Por dois motivos. Ou, melhor, por duas crenças. A primeira crença é a de que, para resolver um algo urgente qualquer, não há problema em pegar atalhos na democracia. Que, entre respeitar a Constituição e interromper um governo do qual não se goste, o atalho é chato, mas não é grave. Os tenentes passaram suas vidas acreditando nisto. Não estavam sozinhos. Durante todo o século 20 houve pelo menos uma tentativa de golpe de Estado por década até o último, dado pela Linha Dura militar, em 1968. A segunda é a crença no Exército. Durante muito tempo, cultivou-se a ideia de que se havia uma instituição incorruptível no Brasil, esta era o Exército. O Exército não se corromperia nem moral, nem financeiramente. Junte-se a isso a percepção de que as Forças Armadas eram movidas apenas por disciplina e interesses patrióticos. Os militares sempre estiveram ali para salvar o Brasil, caso fosse necessário. Aí veio a Ditadura. Os governos militares foram corruptos como os civis e, com a tortura, veio também a corrupção moral. Disciplina não impediu uma série crise econômica e falta de democracia tirou do povo o poder de mudar o governo. Fora um grupo isolado, ninguém deseja o retorno de uma ditadura, quanto mais militar. No governo, o Exército perdeu a credibilidade que teve. Evidentemente, a crise que vivemos é grave e a democracia está sendo pesadamente testada. Mas as Forças Armadas vêm seguindo com rigor seu papel institucional, o Supremo Tribunal Federal acompanha o processo de impeachment e, na ruas, ouve-se em alto e bom tom as vozes de um lado e do outro do debate político. É, certamente, um debate acalorado, com paixões inflamadas. Como cabe a uma democracia.   Voltando à pergunta inicial, em qual século deverá se passar a sua próxima história? Excelente pergunta. Não tenho certeza. Acho que continuarei no século 20.     Assista ao booktrailer da obra, abaixo:   [embed]https://www.youtube.com/watch?v=86oVKjGx4ss&feature=youtu.be[/embed]