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Carlos Marchi +3

“Todo aquele imenso mar de liberdade”, de Carlos Marchi

24/02/2016
“Todo aquele imenso mar de liberdade”, de Carlos Marchi

Por Cláudia Lamego

Prestigiado colunista político e membro da Academia Brasileira de Letras, Carlos Castello Branco, o Castelinho, conviveu com os maiores personagens da história do país e atravessou períodos turbulentos na política, como a renúncia de Jânio Quadros, de quem foi secretário de Imprensa, e o golpe militar de 1964, quando o país mergulhou novamente numa ditadura que duraria até 1985.

Castelinho começou sua carreira em Minas Gerais, para onde se mudou, vindo do Piauí. Formou-se em Direito mas logo começou a trabalhar nos Diários Associados. Foi em Minas que se aproximou dos quatro mineiros, Otto Lara Resende, Fernando Sabino, Paulo Mendes Campos e Hélio Pelegrino, e da literatura. O jornalista sempre sonhou em tornar-se romancista, mas a carreira no jornalismo impôs-se. Castelinho morou depois no Rio e em Brasília, cidade onde consolidou sua carreira.

“Ter sido jornalista político durante duas ditaduras o obrigou a aprofundar as análises, definir as informações essenciais, escrever escondendo as informações proibidas mas de maneira a passar a informação ao leitor. O enfrentamento de duas ditaduras o fez amar, acima de tudo, a liberdade de informação e de expressão”, afirma Carlos Marchi, jornalista que trabalhou no Rio de Janeiro (Correio da Manhã, Última Hora e O Globo), Brasília (O Globo, TV Globo, O Estado de S. Paulo e Jornal do Brasil) e São Paulo (O Estado de S. Paulo) e conviveu longamente com Carlos Castello Branco.

O autor ouviu jornalistas, políticos e amigos de Castelinho, além de ter pesquisado a correspondência pessoal do jornalista e as mais de 8 mil colunas que ele escreveu no JB para fazer o livro.

A história de Castelinho é, também, a história recente do Brasil. Foi uma opção sua não se ater tanto a aspectos da vida pessoal, embora eles estejam presentes (principalmente no início do livro), mas aos fatos que marcaram o jornalismo, a literatura e a política no Brasil nos anos de vida dele?

Ao planejar o livro observei um fato inequívoco na vida de Castelinho: sua vida privada era totalmente agregada a sua vida profissional, era decorrência dela. A partir do momento em que desistiu do sonho da juventude – ser um romancista –, ele mergulhou no mundo político para, já que não conseguira ser um romancista, tornar-se um jornalista diferenciado. Operou com diligência para alcançar isso. A partir daí, sua vida ganhou três dimensões. Uma foi confundir-se com a vida política brasileira; seria impossível contar a vida de Castelinho excluindo o cenário político nacional de sua época. Outra foi tornar-se um marco, uma referência no jornalismo nacional. E a terceira foi, mesmo abstraindo o sonho da juventude, continuar profundamente vinculado à literatura. Estes são os três pilares que sustentaram a vida de Castelinho e que sustentam o livro.

Como o livro dimensiona a personalidade tímida de Castelinho?

Entendo que um livro biografia não deve meramente narrar a cronologia dos fatos que construíram aquela vida. Ele deve ser mais do que isso: é preciso que transforme o biografado num personagem, que crie um personagem para dar ossatura àquele livro. Se além do conjunto de histórias coletadas o autor conseguir criar um personagem, teremos um bom livro biografia; se não criou, você tem apenas o release de uma vida. A biografia tem de ter os fatos principais da vida do biografado mas, acima de tudo, tem de relacionar boas histórias, narrar episódios saborosos, dar a dimensão da personalidade do biografado, relatar o apanhado de uma vida que ao final formará um personagem. Foi com a tentativa de alcançar essa dimensão que eu trabalhei.

Castelinho tinha ambições literárias, mas não chegou a frequentar a Academia Brasileira de Letras, para onde foi eleito. Ele também tinha um certo ressentimento por não ter sido “incluído” na turma de Otto Lara Resende, Paulo Mendes Campos e Fernando Sabino. Qual a importância da literatura na vida profissional dele?

Absolutamente essencial. Embora ele não tenha se tornado um romancista, como sonhou, adquiriu da leitura e das tentativas literárias um domínio preciso do significado das palavras, da estruturação dos textos e da arte narrativa. Adquiriu isso na leitura extensiva e intensiva de mestres como Balzac, Eça de Queiroz, Machado de Assis, Graciliano Ramos, Mário e Oswald de Andrade, Drummond, Manuel Bandeira. Sua obra é prova viva de que um jornalista precisa saber apurar, mas que isso lhe significará apenas a metade do caminho. O caminho inteiro só será cumprido se uma apuração precisa for sucedida por um texto apurado, bem escrito e bem encadeado. E um texto assim só se alcança com muita, muita leitura. Quando o projeto literário naufragou, ele usou o aprendizado na crônica política. Foi como se o sonho literário não tivesse morrido mas fosse sucedido por outra atividade semelhante (se bem que ele resistia a admitir que jornalismo fosse um evento literário).

No livro, você cita algumas passagens em que sua própria trajetória cruzou a de Castelinho, como no episódio do Sindicato de Jornalistas de Brasília, na experiência de substitui-lo eventualmente na coluna do JB. O que te levou a escrever a biografia dele? Quanto tempo durou a pesquisa e em quanto tempo você escreveu a obra?

A ideia de escreve-la surgiu em meados de 2012. A maturação e o planejamento do livro levaram um ano e meio. A ossatura do planejamento partiu de uma longa entrevista que Castelinho prestou a Adriana Zarvos pouco antes de morrer. O planejamento prévio permitiu que eu utilizasse uma técnica ousada: fazer a pesquisa e ir escrevendo ao mesmo tempo, a partir do início de 2014. O livro se ancora em quatro tipos de fontes: a entrevista dada a Adriana e outros testemunhos de Castelinho; a correspondência pessoal (metade em arquivos familiares, metade na Casa de Ruy Barbosa); os depoimentos pessoais que obtive de jornalistas, políticos e amigos que o conheceram; e as mais de 8 mil colunas que ele escreveu no JB. Mas o formato final mudou muito, como quase sempre acontece quando se escreve um livro. No planejamento inicial estavam previstos 14 capítulos; o produto final acabou com 22. Pensava chegar ao final com algo como 250 páginas; a história cresceu e acabou com mais que o dobro disso, 514 páginas. Sem dúvida, a figura de Castelinho foi se agigantando, tornando-se maior à medida que eu recolhia histórias dele e sobre ele.

Castelinho atravessou duas ditaduras. Tinha que escrever nas entrelinhas, descobrir informações em governos fechados. Qual a grande diferença para o jornalismo hoje? Ficou mais fácil, com tanta informação disponível, escrever, manter uma desejável isenção? Qual seria a grande dificuldade hoje para um jornalista filtrar as verdades, indicar tendências e influenciar no jogo político?

Ter sido jornalista político durante duas ditaduras o obrigou a aprofundar as análises, definir as informações essenciais, escrever escondendo as informações proibidas mas de maneira a passar a informação ao leitor. O enfrentamento de duas ditaduras o fez amar, acima de tudo, a liberdade de informação e de expressão. Hoje há plena liberdade no Brasil, mas o jornalismo enfrenta o dilema da internet. Até existir a internet a informação chegava às pessoas filtrada pelas técnicas jornalísticas, que desbastam a influência das tendências político-ideológicas e operam na média das tendências – produzindo aquilo que chamamos de imparcialidade. Mas hoje o cidadão brasileiro tem a oportunidade de mergulhar na internet e descobrir informações vindas de todas as tendências. Mas essa enorme quantidade de informações não passou por filtros e, em sua imensa maioria, está contaminada por uma grande tendenciosidade. A internet oferece pouca ou nenhuma imparcialidade; como é livre e aberta, todos opinam e há muito wishful-thinking em favor das ideias de quem escreve. Condicionado pela mediação dos jornalistas, o leitor se sente perdido ante tamanha elasticidade de opiniões e versões. Mas com o tempo creio os leitores se educarão e entenderão a internet, driblando a tendenciosidade, percebendo o que é sério e verdadeiro, descartando o que é mera demagogia ou populismo gratuito. Mais uma vez, voltamos à velha regra: democracia é como bicicleta; só se aprende praticando.

Que jornalista você acha que herdou e melhor representa o texto de informação, análise e síntese de Castelinho atualmente no colunismo político?

Castelinho foi um modelo de jornalista que não existe mais, até porque o jornalismo mudou muito. Sua análise diária dos fatos políticos era sofisticada, de um ponto de vista estratégico. Seu texto jornalístico era preciso, enxuto e correto, sem o brilho dos textos literários; nele, o que brilhava era a clareza, o discernimento, a consistência e a lucidez da análise que ele fazia da cena política. A lógica construtiva da análise era sustentada pela precisão descritiva dos fatos. Seu objeto principal era o contexto; a essência da análise se concentrava na perfeita construção e elucidação dos contextos, e os fatos mencionados serviam a esse objetivo. Essa fórmula brilhante foi única e fizeram dele um autor diferenciado no jornalismo brasileiro. Ele dispunha de uma imensa quantidade de informações políticas qualificadas; em cada dez informações que apurava, publicava uma ou duas. Isso lhe permitia trocar informações com suas fontes – uma ação vital no jornalismo político – e cotejar as informações recebidas para checar a sua veracidade. Sua coluna foi tão extraordinária que a leitura sequencial dos textos publicados, ao longo do tempo, revela a História política do Brasil de sua época. Hoje, os comentaristas políticos que mais se aproximam de Castelinho, embora trabalhem de forma bastante diferente, são Merval Pereira, de O Globo, e Dora Kramer, de O Estado de S. Paulo. Não menos por isso eu pedi a eles que escrevessem a orelha e o prefácio do livro.

Uma personalidade forte na imprensa como a de Castelinho suscita em nós aquela pergunta: “O que ele estaria escrevendo agora sobre isso ou aquilo”. Você já se pegou imaginando o que diria Castelinho dos governos Fernando Henrique, Lula e Dilma? Arriscaria algum palpite sobre a opinião dele sobre fatos atuais da política?

Não só me peguei imaginando: imaginei o tempo todo em que escrevi o livro. Mas revelar detalhes dessa imaginação seria cometer uma fraude com a memória e o pensamento de Castelinho. Arrisco-me a dizer, apenas, que Castelinho tinha uma visão realística e grandiosa da política; os líderes políticos, na visão dele, deveriam conhecer a história do mundo, a história dos seus pares, a história do seu país e do seu povo. Deveriam ser homens e mulheres cultos. Deveriam ter lido – como ele lera para praticar o jornalismo – para que a cultura geral resultante auxiliasse e embasasse sua visão de mundo. Para ele, a intuição não bastava para um grande gestor público. Era preciso, para alimentá-la e ajudar nas decisões políticas, os efeitos obtidos em experiências semelhantes. Além disso, ele reprovava solidamente os gestos demagógicos e populistas. Situados estes elementos, fica relativamente fácil adivinhar o que diria de uns e outros.

Ainda sobre essa questão, diz-se que a qualidade moral, ética e intelectual dos congressistas mudou muito ao longo dos anos. Você concorda? Acha que Castelinho teria dificuldade de lidar com essa mudança, ao ter que circular e lidar com os atuais senadores e deputados?

Uma das grandes preocupações de Castelinho era que a ampliação da democracia e da inclusão social cobra um pedágio: traz para os cenários eleitorais parcelas eventualmente despreparadas para escolher suas lideranças. Esse é um preço que todo país tem de pagar para se desenvolver política e culturalmente, para se tornar grande. A democracia e a inclusão social ensinam mas esse ensinamento demora um tempo bíblico para se disseminar. O povo vai aprendendo de forma empírica com as dores e decepções que suas decisões lhe trouxeram. Há um espaço cinzento durante o qual haverá esse, digamos, lento credenciamento das lideranças. A continuidade da democracia, no entanto, faz as pessoas crescerem, eleitores e eleitos. Há períodos de safra e de entressafra. O parlamento francês pós-revolução de 1789 talvez tenha sido o mais extraordinário de toda a História política da França; nunca mais se repetiu. Essa variação de qualidade dos parlamentos é universal, não é uma lástima brasileira. Só a continuidade persistente da democracia corrige isso.

Você trabalhou durante muitos anos em Brasília e atuou no jornalismo político também. Essa proximidade com as fontes, que muitas vezes resvala para a amizade, atrapalha ou ajuda? Como o jornalista precisa lidar com isso?

Para o jornalista bem intencionado, a proximidade com as fontes sempre ajuda. Para o jornalista mal intencionado, tanto faz. Para lidar com isso, o jornalista só precisa decidir, ao iniciar-se na profissão, se será bem intencionado ou se será mal intencionado. O resto é exercitar a técnica.

No livro, você relata uma proximidade do Jornal do Brasil com a ditadura, por meio da relação de Nascimento Brito com o governo Médici. Cita o caso de uma entrevista que acabou facilitando o trabalho da repressão no desmantelamento do PCB, e que quase causou a saída de Alberto Dines da redação. Pouco se fala desse lado, digamos, sombrio do JB, que tem passado à história como um jornal progressista, mais à esquerda, inovador, em contraposição a, por exemplo, O Globo, identificado com a ditadura e os governos militares. Nesse sentido, também o Estadão, que apoiou o golpe de 64, tem passado à história como um jornal conservador, mas no entanto foi um dos que mais sofreu e lutou contra a censura. Essa impressão é verdadeira? E injusta?

A impressão que os jornais transmitem precisa passar pelo crivo da História, ao longo do tempo. Hoje vivemos um tempo de, digamos, muitas veleidades ideológicas. Os meios de imprensa – assim como os partidos e as pessoas – são calibrados por supostos papeis de direita ou de esquerda, o que sempre será de uma imprecisão alarmante. O JB lidou, em seus últimos decênios, com crescentes dificuldades financeiras estruturais, o que levou seus donos a fazerem acordos pouco recomendáveis. Mas antes disso acontecer o jornal foi ricamente inovador em seu tempo, como fora inovador o Diário Carioca pouco antes. O Globo e o Estadão nunca iludiram seus leitores: sempre deixaram claríssima sua postura editorial. São publicações de tendência liberal que, obviamente, defendiam (e defendem) a liberdade de expressão e informação. Tecnicamente, no entanto, sempre foram jornais muito bem feitos, assim como a TV Globo e suas derivações, como a Globonews. Diria que nenhum meio de imprensa colaborou tanto para aumentar o nível de informação do povo brasileiro do que O Globo, o Estadão, a Folha de São Paulo, a TV Globo e, em sua escala, a Globonews. Esses meios de imprensa são criticados e crucificados como sendo "de direita" – um rótulo tão fácil quanto impreciso, talvez irresponsável – por uma minoria barulhenta que consegue amplificar suas vozes minoritárias mediante uma atividade política incessante, principalmente através das chamadas mídias sociais (que, aliás, foram inventadas pelo que chamaríamos de "direita imperialista").

O JB criou muitos atritos com Castelinho. Em geral, é comum o atrito entre o comentarista político e a direção do jornal?

É mais que comum, é necessário. Se um comentarista ou analista político é inovador, ousado e imparcial ele certamente gerará reclamações. Isso é mais que normal, é cotidiano na cobertura política de um jornal. Há analistas políticos que procuram agradar a suas fontes. Esses são os descartáveis. O analista político que ficará na história é o que não se preocupa com agrados, que faz análises verazes e precisas. E esse estará sempre no alvo das reclamações dos poderosos. Suas opiniões e conclusões nem sempre coincidirão com as opiniões e interesses da empresa em que trabalham porque todo meio de imprensa tem interesses comerciais. O analista político não pode trabalhar preocupado em que suas análises coincidam com esses interesses.

Castelinho chegou a elogiar os governos militares, sofreu pressões, mas conseguiu navegar no mar de liberdade que criou em torno de si. Quando pôde escrever o que queria, criticou até políticos que tinham uma relação afetiva com ele, como o ex-presidente Fernando Collor. Como ele era visto pelas esquerdas do Brasil naquela época?

Castelinho só sobreviveu oito anos ao fim das ditaduras. Foi esse o tempo em que ele pôde gozar sua navegação no imenso mar de liberdade que ajudou a instalar no Brasil. Durante esse tempo foi respeitado por todos os segmentos ideológicos da política brasileira. É possível – diria mais, é até provável – que se vivesse e trabalhasse até hoje seria estigmatizado por rótulos banais como os que alvejam aqueles que pleiteiam a liberdade plena da informação e da expressão. Não tenho dúvida: essa gritaria histérica que resolve tudo mediante a aposição de rótulos é uma nova forma de ditadura que se desenha em nosso país. Se isso acontecesse, ocorre-me que Castelinho, mais uma vez, e como sempre incansavelmente, se aprestaria para combater as nova formas de ditadura que surgissem, inclusive esta.