A minhoca cega no labirinto, da autora tailandesa Veeraporn Nitiprapha, chega ao catálogo da Editora Record em agosto como o primeiro livro a ser traduzido para o português diretamente do original em tailandês. Uma das autoras mais celebradas da literatura asiática, Veeraporn traz em seu livro uma narrativa lírica, profunda e sensorial sobre receber a vida de braços abertos a partir de um encontro inesperado de três órfãos na cidade de Bangkok.

A obra já vendeu mais de 200 mil cópias na Tailândia, teve os direitos de tradução comercializados para países como Estados Unidos, China, Vietnã e Turquia, e foi vencedor do Southeast Asian Writers Award (prêmio SEA Write) em 2015. A autora foi a primeira mulher a ganhar o prêmio duas vezes, repetindo o feito três anos depois com seu segundo romance.
Admirador da obra de Veeraporn e do português brasileiro, o tailandês Nut Traiphoomi, de 31 anos, encarou o desafio de traduzir A minhoca cega no labirinto com honra. De sua casa no pequeno país da Bélgica, ele fala sobre seu processo solitário de tradução, a nostalgia calorosa da Tailândia e as semelhanças culturais e linguísticas de sua terra natal com o Brasil que foram valiosas para o seu trabalho.
Como foi a experiência de traduzir o livro diretamente do tailandês?
Foi desafiador. Primeiro veio esta proposta de tradução através da minha universidade na Tailândia, por indicação da minha professora de português. Pensei muito antes de confirmar, porque era uma responsabilidade muito grande — seria a primeira obra traduzida diretamente do tailandês para o português. Eu também não tinha muita experiência em traduzir um romance inteiro. Mas, no fim, confirmei, e foi uma honra enorme. O processo foi muito difícil e bastante solitário, já que sou um dos poucos tradutores de tailandês para português. A língua usada no livro também exigiu muito de mim. Mas aprendi muitíssimo com essa experiência.
Qual é a sua relação com o português brasileiro? É algo com que já tinha familiaridade, ou algo que conheceu mais de perto por curiosidade e pelo trabalho de tradução?
Fiz o meu mestrado na Universidade do Minho, em Portugal, onde tive muitos colegas brasileiros. Vi várias séries e li algumas obras do Brasil — na verdade, o primeiro livro que consegui ler em português foi em português do Brasil (O Gato Malhado e a Andorinha Sinhá, de Jorge Amado). Posso dizer que foi difícil adaptar-me ao português que eu costumava usar, mas a sonoridade da nossa língua — o tailandês — é mais compatível com o português do Brasil do que com o português de Portugal. É mais direto, mais coloquial.
Conheci também essa variante mais de perto através do próprio trabalho de tradução. Perguntei bastante às pessoas o que soava melhor em português do Brasil, e a editora ajudou-me muito nesse processo. A primeira versão da tradução tinha uma influência forte do português de Portugal, mas, no fim, é a mesma língua — e trabalhamos bastante para alcançar o "sabor" brasileiro.
Mas, enfim, acho que há camadas de semelhanças entre as nossas culturas — às vezes, penso que os brasileiros nos vão compreender melhor do que outros falantes de português. Nesse sentido, não preciso de me adaptar tanto. E foi por isso que me considero sortudo por poder traduzir para o português brasileiro.
Encontrou algum desafio específico na linguagem ou no estilo de escrita de Veeraporn Nitiprapha?
Não consigo dizer tudo, mas aprecio muito a Veeraporn. A obra dela é feita de camadas de emoção. É mais como uma teia que é preciso desvendar com delicadeza, passo a passo. Cada vez que se lê, sente-se algo diferente, talvez porque desta vez se desenrola uma camada diferente.
Veeraporn é uma escritora muito renomada na Tailândia; não há quem, pelo menos na cena cultural tailandesa, não a conheça. Tem muitas obras, e eu cresci a lê-las — comecei com outro livro dela, พุทธศักราชอัสดงกับทรงจำของทรงจำของแมวกุหลาบดำ (The Twilight Years and the Memories of the Memories of the Black Rose Cat). Gosto muito do uso que ela faz da linguagem — não é um tailandês qualquer, tem algo poético, mais próximo de gerações anteriores. Ela tem liberdade e diversidade para mudar o registo e o tom do livro. Precisamos de ser bastante flexíveis — esta obra é como um puzzle. Não se pode esperar que flua como um rio — não flui assim. São contos de personagens diferentes, cada um com um modo diferente de narrar. É preciso ter força mental e afastarmo-nos um pouco ao terminar um capítulo antes de começar outro.
Ela explora também sempre elementos tipicamente tailandeses — como já vimos neste livro: plantas, comidas, acontecimentos históricos. E como é que eu traduzo isso? As plantas, por exemplo, têm muitas espécies que temos em comum — como flamboyant, samambaia, ilangue-ilangue, jambolão. Acho que os leitores brasileiros têm o privilégio de reconhecer e comparar essas plantas sem precisarem de consultar uma lista explicativa.
Consegue contar algum caso específico — desafiador, curioso ou até engraçado — que tenha acontecido durante o processo de tradução?
Como já mencionei antes, uma das partes mais interessantes — muito mais do que traduzir do inglês — foi lidar com os nomes das plantas. Nós, brasileiros e tailandeses, temos uma maior semelhança de clima e fauna, por isso, enquanto em inglês muitas vezes é preciso transliterar o nome tailandês e depois montar uma lista enorme de explicações sobre que planta é aquela, na versão brasileira eu podia simplesmente comparar com uma planta da mesma espécie, apenas com nome diferente no Brasil. Mas por vezes é preciso ter cuidado — o nome da planta carrega muito peso metafórico no livro, e por isso, às vezes, preferi manter o nome original em tailandês em vez de o traduzir.
Outra coisa que sempre me fascinou são os aglomerados de adjetivos em tailandês. O tailandês é uma língua que "brinca" muito para descrever algo — um único adjetivo nunca é suficiente. Para dizer "brilhante", por exemplo, teria de dizer algo como song pra kai ra yib ra yab, que evoca um brilho com glitter, refletindo luz cintilante — e as duas últimas palavras ainda brincam com a sonoridade entre si. Se traduzisse o conjunto inteiro para o português do Brasil, soaria excessivo, incompreensível. Às vezes é preciso encontrar o adjetivo certo que capte melhor aquele tipo específico de brilho. E há tantas coisas brilhantes e cintilantes no livro — já para não falar das coisas escuras — mas cada brilho, cada escuridão, é de um tipo completamente diferente.
Há muitas partes engraçadas no livro também. Precisei de ler em voz alta várias vezes — o meu companheiro certamente achou que eu tinha enlouquecido. Queria captar o som das coisas: qual é o som de uma gota de água a cair, em tailandês, e como o traduziria para o português do Brasil? O som de um tiro? E os palavrões em tailandês — isso foi difícil, porque os insultos tailandeses costumam girar em torno da natureza, dos animais, de partes íntimas, e no Brasil as referências são outras. Precisei de pesquisar bastante na Internet para descobrir que palavrões usam os brasileiros — e acreditem, há muita referência por aí. Vi coisas bastante sujas nessa busca, só para conseguir exprimir aquilo corretamente.
Foi também um processo muito emocional. Traduzia o livro durante um período em que estava confinado neste país pequeno, a Bélgica, e o livro trouxe-me uma nostalgia enorme da Tailândia. Tinha saudades da comida da história, e até de Nakhon Chai Si. A minha avó paterna também é dessa região — antes de deixar a Tailândia, cheguei a visitar Nakhon Pathom, o rio de Nakhon Chai Si. Foi como se aquele rio me falasse de novo, só de o imaginar. No fim, este livro fez-me explorar a minha própria saudade de casa.
E, para conhecermos um pouco mais sobre si: o que tem lido, visto e ouvido ultimamente? Pode ser um livro, filme, série, música, podcast ou qualquer coisa que esteja a acompanhar neste momento.
Chamo-me Nut Traiphoomi. Tenho 31 anos e vivo atualmente na Bélgica. Sou um eterno aprendiz de português — e agora também tradutor. Leio muito, mas não tenho um gênero fixo; o meu interesse vai mudando por fases, num ciclo quase obsessivo. Agora mesmo acabei de reler O Misterioso Caso de Styles, de Agatha Christie — estou numa fase de mistério policial. Há uma biblioteca perto de onde moro, numa pequena vila na Bélgica, e o que faço é simplesmente vasculhar as prateleiras. Vou atrás do que desperta a minha curiosidade no momento.
Estou também numa fase de história iraniana — ando a ler bastante sobre isso ultimamente. Estou a ler O Despertar do Irão, de Shirin Ebadi — quero conhecer a vida de uma advogada de direitos humanos iraniana muito conceituada, e ver também a vida de iranianos comuns a lutar pelos seus direitos e pela liberdade.
Vejo e ouço uma grande variedade de coisas, mas aprofundo-me sempre intensamente num período ou tema de cada vez. Ultimamente tenho visto mais filmes em alemão — vi Liebe in den Gängen de Thomas Stuber. Acho que estou na fase de histórias realistas, de fatia de vida.
Na música, ouço principalmente canções dos anos 70 e 80 — agora estou mais virado para a música persa e árabe egípcia: Mahasti, Googoosh, Umm Kulthum, Dalida.
O que espera que o público brasileiro sinta ou descubra ao ler o livro?
Não espero nada específico. Só desejo que aquilo que fiz aqui traga mais benefício do que prejuízo à forma como a literatura tailandesa é vista pelo público brasileiro. O peso é grande — este é o primeiro romance tailandês alguma vez traduzido para o português do Brasil. Reli o livro e a minha tradução várias vezes, e às vezes penso que poderia ter feito diferente em alguns trechos. Interpretei, reinterpretei; algumas partes tiveram mais atenção do que outras. Continuo a achar que poderia ter feito melhor. Cheguei a falar com a própria Veeraporn e desculpei-me com ela, dizendo que talvez tivesse causado mais dano do que bem à sua obra. Mas ela disse-me que isso é normal — que até a própria autora nunca está totalmente satisfeita, e que temos de aprender a viver com isso.
Mas espero que cada leitor leve consigo a parte que mais ama. Acho que é, no fundo, uma história pessoal. Ninguém vai ler este livro e sentir exatamente a mesma coisa — nem a mesma pessoa, em momentos diferentes da vida, sentirá o mesmo. É impossível. Vamos sentir mais simpatia por uma personagem do que por outra. A nossa própria vida dirá qual delas fala mais fundo conosco.
Li este livro pela primeira vez ainda nos meus vinte anos, e ele confinou-me, tocou-me profundamente. Agora, na casa dos trinta, senti-me feliz por descobrir que há outras pessoas que pensam como eu — que também tiveram de enfrentar essa solidão, o sabor de ser adulta, a jornada e o crescimento. A crueldade do mundo, e uma sociedade que nos exige tanto, acaba por nos levar ao apego. No fundo, a vida não tem saída — é um andar às voltas, um nadar sem rumo. Mas continuamos sempre à procura de uma saída, em tudo. E talvez seja isso: penso que somos todos, à nossa maneira, como as minhocas cegas.
Às vezes, simplesmente apreciamos a beleza do metaforismo. Houve momentos em que a natureza e o ambiente falaram mais alto do que a complexidade das personagens — a entrar num jardim de plantas exóticas, a voltar ao rio Nakhon Chai Si, a levar conosco ideias culinárias de cada ritual de almoço à segunda-feira, ou a imaginar como seria estar no lugar do tio Yellow, onde quer que ele esteja nesse momento — tudo isso de forma mais sensorial do que emocional. Somos apenas humanos, não é? Não espero que compreendam assim tanto. Basta terem tempo para ler e sentir alguma coisa a partir disso — acho que já é um luxo.
Enfim, não sei o que os brasileiros vão pensar deste trabalho, mas acho que há muita liberdade que a Veeraporn nos dá para explorar a sua obra, e tentei o meu melhor para manter essa liberdade. Podem lê-la sob qualquer perspectiva — levem consigo o que quiserem, amem o que quiserem. E, se alguém não gostar deste livro, está tudo bem.