Skip to content
Antes que seque +3

"Antes que seque", de Marta Barcellos

16/11/2015
"Antes que seque", de Marta Barcellos
Por Henrique Rodrigues  

 width=Ao se debruçar sobre temas que permeiam o imaginário feminino em Antes que seque, a autora e jornalista Marta Barcellos, vencedora do Prêmio SESC de Literatura na categoria contos deste ano, assume um tom ácido. Ela fala sobre dificuldade de engravidar, aborto e idealização da maternidade. Os códigos da classe média também giram em torno da obra, que será lançada nesta terça na ABL, a partir das 17:30.

Antes que seque traz contos que traduzem, de forma muito bem cerzida, as simbologias do desejo de maternidade e do consumo como objetivos dos personagens. Objetivos que muitas vezes são inalcançáveis. Por extensão, a própria literatura seria uma de tentativa de representar o mundo, mas que é fadada à incompletude?

Mulheres que não conseguem engravidar, ou exercer a maternidade da forma idealizada, assim como personagens enredados por padrões de aparências e consumo, perpassam o livro. O tema, no entanto, é usado para falar daquilo que não se realiza; da impossibilidade: de vida, de felicidade (prometida a uma classe média em permanente mal-estar) e, também, da escrita. Isto porque a impossibilidade de narrar a vida está sempre presente: a narrativa conduz, tensiona e sugere, mas não responde. Não esclarece, porque a linguagem nunca é suficiente para dar conta do mundo. É uma tentativa frustrada, que se repete a cada história - assim como as buscas e urgências dos personagens.

O livro foi descoberto pelo Prêmio SESC de Literatura, o mais importante concurso para autores inéditos no país. Como foi receber a notícia? Já havia lido outros vencedores?

Quando soube do número recorde de inscrições, achei minhas chances remotas e até esqueci que estava concorrendo. Ao receber a notícia, fiquei paralisada. Depois chorei muito de emoção, porque era o aval do qual eu precisava para fazer a ponte da carreira de jornalista para a de escritora. Eu tinha comprado recentemente O evangelho segundo Hitler, de Marcos Peres, e fui correndo ler, depois de ter ganhado o prêmio.

Nos contos vemos personagens femininas fortes. E exatamente nesses dias vemos manifestações em torno do direitos das mulheres. De que forma a literatura seria um canal para dar voz a essas demandas sociais tão urgentes, especialmente na sociedade brasileira?

A condição feminina, em suas armadilhas e fragilidades impostas historicamente pela sociedade, está presente nas narrativas, mas não em forma de denúncia ou em qualquer tentativa de se fazer uma “literatura engajada”. Por conta do foco narrativo predominante (dos 22 contos, apenas cinco têm o ponto de vista masculino), o feminino é apresentado ao leitor em toda a sua complexidade, mas de forma neutra: as personagens não são julgadas nem querem passar mensagens. O ponto de vista de uma minoria, porém, é sempre rico de possibilidades literárias, e é através desta potência que novos espaços acabam sendo conquistados, na arte e na sociedade.

Sua trajetória de jornalista te colocou em contato com a palavra escrita em diversos jornais, como Gazeta Mercantil, Valor Econômico e O Globo, mas na área de economia. Como a literatura entrou na sua vida? E qual é a sua expectativa de começar uma carreira literária?

Na verdade comecei a carreira como repórter no Globo-Ipanema, nos Jornais de Bairros do Globo, cobrindo cultura e comportamento. Tenho orgulho de ter entrevistado, por exemplo, Tom Jobim e Tim Maia. Cheguei a cobrir cidade e política. Quando me mudei para São Paulo, onde morei sete anos, fui deslocada para a área de economia, mas mesmo nesta editoria sempre me destaquei mais pelo texto (do que por ser uma repórter investigativa, por exemplo). Era escalada para as matérias “sem notícia”, como as de perfil ou especiais que precisavam de “personagens”. Os livros me acompanham desde criança: meu pai era professor de química mas tinha a literatura como hobby. Politizado, me indicava autores brasileiros (Graciliano Ramos, Érico Veríssimo, Jorge Amado, José J.Veiga), latino-americanos (Gabriel Garcia Marques, Juan Rulfo) e os “engajados” (para ele, isso incluía de Camus a Kafka). O sonho de ser escritora surgiu quando descobri Clarice Lispector e Cecília Meirelles, mas foi afastado na adolescência: eu pensava precisar, antes, de experiência de vida, e fui atrás das minhas primeiras histórias no jornalismo. Sempre escrevi. Primeiro foram pilhas de diários, depois vieram as reportagens em jornal e, com o surgimento da internet, as crônicas em um blog e no portal Digestivo Cultural. Quando saí da labuta de jornal diário, depois de vinte anos em redação, busquei o caminho da profissionalização: entrei para o Laboratório de Vivência Literária, liderado pelo escritor Luiz Ruffato, e fiz o mestrado em Literatura na PUC-Rio, com uma pesquisa sobre criação literária. Com esta nova base, senti-me mais segura para novas experimentações na escrita, e acabei por encontrar a minha “voz literária”, neste primeiro livro de ficção. Na prática, foram cinco anos escrevendo o livro, enquanto estudava e buscava esta voz própria para narrar as minhas histórias. Com a publicação do “Antes que seque”, concretiza-se assim o sonho de menina de ser escritora. Mas uma escritora que já nasce madura, graças a toda uma trajetória de escrita e de leituras. Os próximos livros, com certeza, não vão precisar de cinco anos para ficar prontos.