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Ana Cristina César +7

Destino: Paraty com Ana C., Cacaso, Leminski, Torquato e Waly

24/06/2016
Destino: Paraty com Ana C., Cacaso, Leminski, Torquato e Waly
Por Cláudia Lamego   No ano em que Ana Cristina César é a homenageada da Festa Literária Internacional de Paraty, a José Olympio lança nova edição de “Destino: Poesia”, uma antologia que reúne obras da poeta e de outros quatro autores da chamada “Geração 70”, ou “Geração marginal”: Cacaso, Paulo Leminski, Torquato Neto e Waly Salomão. Organizado pelo professor Italo Moriconi, o livro é um convite ao leitor que quer conhecer ou revisitar cinco vozes, segundo ele, inauguradoras da poesia contemporânea brasileira. Na apresentação da obra, Moriconi afirma que os cinco, que nos deixaram cedo, em épocas e por causas diversas, foram “discípulos, na literatura, do impacto produzido na cultura e no comportamento pelo advento do rock internacional e da MPB local”. Também se falou deles como “geração mimeógrafo”, pelo caráter artesanal dos livrinhos de poesia, populares na época, vendidos pelo próprio poeta em portas de cinemas, teatros, bares. Os cinco deram respostas vivenciais e estéticas a seu tempo, regido pela lei número 1 da loucura utópica: mais vale viver 100 anos em 10, que 10 anos em 100. Apesar de terem reatualizado o mito do caráter aventureiro e arriscado, fatal ou trágico, de um “destino de poeta”, para Moriconi, Ana C., Cacaso, Leminski, Torquato e Salomão produziram menos uma poesia de angústia e sofrimento que de euforia e celebração, ironia e um certo desencanto. “Na proposta de fusão entre poesia e vida, traço típico da geração 70, identificado já por sua primeira crítica e antologista, Heloísa Buarque de Hollanda, os cinco poetas aqui apresentados estiveram entre os que exploraram até o limite a inextricável e sempre misteriosa sinergia entre vida, criação e morte. Para o bem e para o mal. Deles e nosso. O bem é a poesia, presença perene. O mal é a saudade, ausência presente. Nos corações e mentes dos demais poetas e artistas surgidos nos anos 1970, ainda vivos e produtivos, chegando por agora à casa dos 60 anos de idade, Ana C.-Cacaso-Leminski-Torquato-Waly permanecem como referência. Seus versos acendem o clarão de nossa imagem da juventude fixada no tempo — efêmera, eterna”, escreve o professor. “Destino poesia” chega às livrarias com nova capa, fac-símiles dos manuscritos, biografias, apresentação de Italo Moriconi e bibliografia. Selecionamos uma poesia de cada um dos autores. Leia esses trechos abaixo.     Ana Cristina César   NOITE CARIOCA Diálogo de surdos, não: amistoso no frio. Atravanco na contramão. Suspiros no contrafluxo. Te apresento a mulher mais discreta do mundo: essa que não tem nenhum segredo.   Cacaso   LOGIAS E ANALOGIAS   No Brasil a medicina vai bem mas o doente ainda vai mal. Qual o segredo profundo desta ciência original? É banal: certamente não é o paciente que acumula capital.     Paulo Leminski   das coisas que eu fiz a metro todos saberão quantos quilômetros são aquelas em centímetros sentimentos mínimos ímpetos infinitos não?     Torquato Neto LET’S PLAY THAT quando eu nasci um anjo louco muito louco veio ler a minha mão não era um anjo barroco era um anjo muito louco, torto com asas de avião eis que esse anjo me disse apertando a minha mão com um sorriso entre dentes vai bicho desafinar o coro dos contentes vai bicho desafinar o coro dos contentes let’s play that   Waly Salomão   GRUMARI Entra mar adentro Deixa o marulho das ondas lhe envolver Até apagar o blá-blá-blá humano. Maré que puxa com força, hoje. É a lua cheia, talvez... As retinas correm a cadeia de montanhas que circunda a praia.