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Civilização Brasileira +4

Frédéric Martel no Rio

28/10/2015
Frédéric Martel no Rio

Por Mario Grangeia

Pesquisador dos laços entre tecnologia, cultura e economia, o escritor francês Frédéric Martel levantou dados e casos de negócios em meia centena de países e os reuniu em Smart: o que você não sabe sobre a internet, que a Civilização Brasileira e ele estão lançando no Brasil. Em sua escala carioca, ele expôs algumas conclusões nesta 3ª feira (27) num cenário privilegiado: a cobertura com vista para o Parque do Flamengo onde fica o Instituto de Tecnologia e Sociedade. Profissionais e estudantes lotaram esse espaço na palestra de lançamento do livro desse jornalista e doutor em ciências sociais pela tradicional EHESS (Paris).

Em seu livro, Martel demonstra com fartura de exemplos quão equivocada é a tese de que a internet leva à uniformização do mundo. Pelo contrário: sua pesquisa em corporações americanas, chinesas, brasileiras e de dezenas de outras nacionalidades prova a existência de uma ampla multiplicidade de “internets” – isso mesmo, no plural. Multinacionais como Google, Facebook e Amazon coexistem com concorrentes locais e essa diversidade no meio virtual não é tendência passageira, mas que veio para ficar.

“A internet é geolocalizada. As fronteiras ainda existem no mundo da internet”, disse o autor, num inglês cheio de sotaque. “Também o modo de usá-la varia muito de um lugar ao outro.”

Como todo viajante que percorre os vários continentes, Martel é daqueles que volta cheio de histórias e as melhores ele conta para seus leitores (antes de Smart, ele escreveu Mainstream: a guerra global das mídias e da cultura – também editado pela Civilização Brasileira – e outros sete livros). O público presente ao ITS ouviu dele casos como o auge de retuítes de seu programa na rádio francesa quando da participação do cantor Mohammed Assaf, vencedor de um dos “Arab Idol”, e a negativa do executivo do site chinês de buscas Baidu de que copiavam o Google. Quem ler Smart verá relatos desde os bastidores de startups do Sillicon Valley até experiências brasileiras como Viva Favela e Porto Digital, passando por cases os mais variados nos negócios e cultura.

Um debate ressaltado por Martel foi sobre como a internet modificou o modo de as pessoas descobrirem o que pode ser apreciado por elas. Antes, o meio corrente de fazer recomendação era a crítica tradicional, como para filmes e músicas. Hoje, há cada vez mais algoritmos que levam a recomendações a partir do histórico do usuário, como exemplificam o Netflix e o Spotify. “É preciso combinar as qualidades desses dois meios”, defendeu o autor, para quem os algoritmos no futuro vão superar falhas atuais como não acompanhar mudanças de preferência do usuário, por filtrarem seleções a partir de acessos mais antigos.

Na etapa final da apresentação, o escritor discorreu sobre cinco pontos que ele diz merecer reflexão no Brasil: a ideia de se aliar à Europa e EUA por um “marco civil da internet” global e zeloso da privacidade; uma maior regulação no setor de telefonia; o uso da internet para melhorar as vidas das pessoas (como mostra ser possível o CDI); a proliferação de smart cities (não bastaria o recifense Porto Digital); e os impactos no mercado de trabalho, onde cerca de metade dos empregos atuais serão alterados pela internet.