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Entrevistas +2

"Literatura e animalidade", de Maria Esther Maciel

03/05/2016
"Literatura e animalidade", de Maria Esther Maciel
Por Juliana Krapp   Kafka, Borges, Drummond, Clarice Lispector, J.M.Coetzee, Guimarães Rosa — e esses são só alguns exemplos. É vasta a lista de autores que ousaram, com sua arte, encarar a desconcertante alteridade que os animais simbolizam para nós, humanos. A ciência e a filosofia ocidental, marcadas pela racionalidade e pelo antropocentrismo, têm forjado os saberes sobre os animais de forma precária, marcada por estereótipos e representações pejorativas ou fantásticas. A literatura, por sua vez, tem sido espaço alternativo para perscrutar a complexidade desse outro radical que é, também, fonte incessante de espelhamento e de identificação. É a esses textos ficcionais que Maria Esther Maciel recorre para tecer uma instigante análise sobre a questão dos animais em nossos tempos, trazendo a literatura como campo privilegiado para abordar a violência, os enigmas e os desafios ocultos na controversa relação entre animalidade e humanidade. Maria Esther Maciel é professora titular de Teoria da Literatura e Literatura Comparada na UFMG. É também escritora e pesquisadora do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico. Sua primeira obra de ficção, O livro de Zenóbia, foi finalista do prêmio Portugal Telecom em 2005. Com O livro dos nomes, a autora foi finalista do Prêmio São Paulo de Literatura, do Prêmio Portugal Telecom e do Prêmio Jabuti em 2009. Maria Esther Maciel foi também organizadora do livro Pensar / Escrever o animal: Ensaios de zoopoética e biopolítica.   1 - Só agora, com seu livro, a relação entre literatura e animalidade ganha foco num trabalho brasileiro de fôlego. O que a instigou e ainda instiga sobre o tema? O tema dos animais sempre esteve presente no meu horizonte de interesses, embora só a partir de 2008 eu tenha efetivamente iniciado uma pesquisa sobre ele no campo da literatura, da filosofia e de áreas afins. Minha relação com os animais passa, sobretudo, pela ordem dos afetos. E foi isso que me moveu a empreender uma reflexão sobre as inscrições da animalidade em obras narrativas e poéticas de diferentes contextos. Várias questões me instigaram e instigam nessa abordagem. Entre elas, estão: como alguns escritores modernos e contemporâneos lidam com a alteridade animal em suas obras, bem como com a noção de humano? Em que medida as discussões bioéticas, biopolíticas e ecológicas do nosso tempo incidem, ainda que obliquamente, no enfoque literário dessas questões? O que definiria o conceito de animalidade? Como os poetas buscam capturar pelas palavras a subjetividade animal? Até que ponto é possível escrever o animal?   2 - Como tem sido a busca por essas respostas? Pela leitura atenta de romances, contos e poemas de diferentes escritores que escrevem ou escreveram sobre os animais, a animalidade e as fronteiras do humano. Alguns pensadores também têm me iluminado nessa busca, como Montaigne, John Berger, Derrida, Elisabeth de Fontenay, Coetzee, Donna Haraway, Dominique Lestel e Eduardo Viveiros de Castro, entre outros. Estudos contemporâneos de etologia (comportamento animal) têm, igualmente, me interessado bastante. A pesquisa é ampla e, a cada momento, venho me deparando com novas possibilidades de respostas a essas questões.   3 - Alteridade radical e, ao mesmo tempo, fonte de espelhamento e de identificação. O animal representa o nosso duplo e, também, aquele que nos escapa. Representar essa complexa ambiguidade é, evidentemente, um grande desafio para a arte. Como os limites da linguagem interferem nesse desafio? O desafio é grande, sobretudo quando se busca escapar dos limites da mera representação do animal na arte e na literatura. A complexidade que define nossas controversas relações com essa alteridade radical (que também nos habita) exige de nós uma abertura dos sentidos, um exercício de desprendimento dos saberes legitimados sobre o mundo animal. Nossa razão não é suficientemente poderosa para nos levar aos meandros da subjetividade e das linguagens não humanas. Cabe aos escritores/artistas criar maneiras de encontro com essa alteridade. É um desafio, sem dúvida. Para enfrentá-lo, há que se “pensar com delicadeza / imaginar com ferocidade”, como diria o poeta português Herberto Helder.   4 - Ao discorrer sobre Derrida e sua ideia de "animot", a senhora lança a pergunta: "o que realmente sabemos sobre esses radicalmente outros?". Queria lhe devolver a indagação. O que sabemos, afinal, sobre os animais? Há um conjunto de saberes científicos oriundos, sobretudo, da zoologia e da etologia; há o conhecimento filosófico, que se constitui principalmente de teoremas sobre animal (convertido em um singular genérico, como já pontuou Derrrida); há os saberes empíricos extraídos da convivência humana com os bichos. No entanto, esses saberes não deixam de ser também insuficientes, precários e provisórios, por estarem circunscritos ao entendimento racional. Não dá para negar a enorme importância dos avanços da etologia contemporânea, visto que a cada dia nos são reveladas surpreendentes descobertas sobre as faculdades, habilidades e potencialidades cognitivas dos viventes não humanos. Mas os animais, em sua mais íntima complexidade, continuam na esfera do não sabido, desafiando o poder humano de compreensão. 5 - Aproveito para furtar do livro outra pergunta: o que sabem os animais? Foi essa indagação que motivou Derrida a escrever O animal que logo sou (sigo). Ao falar de sua experiência de ter sido observado por seu gato em um momento de nudez, o filósofo admite: “ele tem seu ponto de vista sobre mim”. Em outras palavras, aquele gato é um sujeito que tem um saber sobre o que olha. Entretanto, não é possível saber exatamente o que esse outro sabe. Os poetas têm tentado depreender, pelos artifícios da poesia e pelo esforço da imaginação, que tipo de saber é esse. Drummond, por exemplo, no poema “Um boi vê os homens”, assume uma “persona bovina” para se arriscar a dizer o que o boi pensa e diria sobre os humanos, se tivesse acesso à linguagem verbal. E é nesse sentido que os poetas podem nos ensinar mais do que sabem sobre o enigmático saber dos animais.   6 – A ciência tem mostrado que os animais têm várias habilidades que se achava serem exclusivas dos homens. A sociedade ocidental está vivendo uma espécie de "reviravolta animal"? Não tenho dúvidas quanto a isso. A cada dia, novas e surpreendentes revelações sobre animais de várias espécies são feitas por estudiosos do comportamento animal, o que tem desestabilizado as próprias noções de humano, humanidade e humanismo. Lembro-me daqueles 13 neurocientistas renomados que se reuniram em Cambridge, em meados de 2012, para formalizar uma declaração histórica, na qual admitiram que os humanos não são os únicos seres do planeta a ter consciência, sentimentos, atos intencionais e inteligência. Segundo o manifesto, cujo anúncio contou com a presença do físico Stephen Hawking, “todos os mamíferos, todos os pássaros e muitas outras criaturas, como o polvo, possuem as estruturas nervosas que produzem a consciência”. Mesmo que isso não seja nenhuma novidade para quem já conviveu ou convive com cães, gatos, papagaios, cavalos e outros bichos, ou mesmo para quem presta atenção no mundo em que vive, esse manifesto teve a inegável importância de legitimar esses dados que, por séculos e séculos, foram ignorados ou menosprezados pela ciência e o pensamento ocidentais, com poucas exceções. A isso se somam ainda numerosos estudos, relatos, vídeos e histórias sobre as faculdades e habilidades animais, que estão em circulação hoje em dia. Vou repetir o que eu já disse numa crônica: George Orwell que me desculpe, mas a verdadeira revolução dos bichos só está acontecendo agora.   7 - Na história da literatura, têm prevalecido representações pejorativas ou fantásticas dos animais. Mas há, claro, obras que perscrutam de forma complexa a alteridade radical que sintetizam. Há autores eficazes em borrar as fronteiras entre humano e não humano — ou, ao menos, em problematizá-las. Se tivesse que indicar uma lista breve com alguns deles, quais seriam imprescindíveis? O repertório de autores que lidam de uma forma mais complexa com a alteridade animal e com as fronteiras humano/não humano é vasto, sobretudo a partir do século 19. Machado de Assis, Jack London, Patricia Highsmith, Jacques Roubaud, Pirandello, Ted Hugues, J.M. Coetzee, Clarice Lispector, Guimarães Rosa, Juan José Arreola, Graciliano Ramos, João Alphonsus, Lydia Davis, Herberto Helder, Wilson Bueno, Eva Hornung, entre muitos outros, são nomes imprescindíveis. 8 - Qual o espaço da animalidade na escrita brasileira contemporânea? Na literatura brasileira do século 20, vale ressaltar a importância de escritores modernos que sugiram a partir dos anos 30, como Graciliano Ramos, João Alphonsus, Guimarães Rosa, Carlos Drummond e Clarice Lispector, que marcaram um novo momento da literatura brasileira no que tange à questão da animalidade. Eles lidaram – cada um à sua maneira – com as relações entre homens e animais sob um enfoque libertário, manifestando, ainda, sua cumplicidade com esses outros viventes, numa recusa de qualquer ato de violência contra seres humanos e não humanos. Isso, como se sabe, num período de guerras, regimes políticos totalitários e grandes movimentos sociais. Quanto aos escritores surgidos a partir do final do século 20 e início do século 21, pode-se dizer que eles já lidam com a questão dos animais sob o peso de uma realidade marcada por grandes catástrofes ambientais, extinção de inúmeras espécies, experiências biotecnológicas, crescimento acelerado e cruel das granjas e fazendas industriais etc. Menciono, a título de exemplos, as obras poéticas de Astrid Cabral, Nuno Ramos, Wilson Bueno, Sérgio Medeiros, Josely Baptista Viana e Eucanaã Ferraz. Na narrativa, vale mencionar o primeiro “romance vegano” brasileiro, Humana festa, de Regina Redha – que segue um viés, digamos, mais ativista. Eu poderia fazer uma longa lista aqui. 9 - Há um capítulo de seu livro dedicado à poesia. A linguagem poética tem sido mais potente na busca por pensar, imaginar e escrever o animal? A incursão na animalidade é uma experiência que se inscreve, sobretudo, na ordem dos sentidos e da imaginação. O conhecimento meramente racional não dá conta de traduzir a “outridade” do animal para a linguagem humana. É necessário dar um salto, trespassar as fronteiras das espécies, entrar na subjetividade desses outros que nos são familiares e estranhos, semelhantes e diferentes, ao mesmo tempo. A poesia, que é o espaço por excelência do não sabido, é o mais propício para esse salto ou trespassamento para a outra margem, a qual está também (e paradoxalmente) dentro do humano. Coetzee, sob a voz de sua personagem Elizabeth Costello, disse em A vida dos animais que os poetas nos ensinam mais do que sabem, graças “ao processo chamado de invenção poética, que mistura sensação e alento de uma forma que ninguém jamais explicou, nem explicará”. E é dessa maneira que a poesia é capaz de trazer à tona da linguagem o corpo vivo do animal, abrindo o humano a formas híbridas de existência e ao reconhecimento de sua própria animalidade. 10 - À luz de Michel de Montaigne e de outros filósofos, seu livro relaciona a questão da animalidade às políticas de vida. A filosofia humanista antropocêntrica teria ajudado a alimentar uma relação predatória dos homens com os animais. Há esperança quanto a isso? Como a ótica contemporânea enquadra o sujeito animal, e o quanto está pronta para uma convivência sensível e afetuosa? Tento mostrar, valendo-me das ideias de Montaigne, Derrida e, principalmente, da literatura de J.M. Coetzee, que a filosofia humanista antropocêntrica contribuiu não apenas para alimentar uma relação predatória dos homens com os animais, como também para estabelecer hierarquias e práticas de violência nas relações dos humanos com os próprios humanos. Daí a necessidade de se repensar o conceito de humanismo e as relações entre as espécies fora dos limites do antropocentrismo e do especismo que definiram (e ainda definem) a noção de vida. Embora tenha havido, cada vez mais, por parte da sociedade contemporânea, uma aceitação dos animais não humanos como sujeitos, as práticas de dominação e assujeitamento desses outros ainda continuam muito, muito vivas. Nossa relação com eles continua sendo um grande desafio ético e político no tempo presente.