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"Manual do autismo", de Gustavo Teixeira
Por Luciana Calaza
Crianças deveriam vir com um manual de instruções, já dizia a minha avó. Mas elas não vêm, e quando se trata de uma criança com autismo, fica ainda mais difícil saber onde encontrar informações confiáveis sobre tudo que envolve o transtorno: sinais de alerta, diagnóstico, causas, características comportamentais e tratamento. Foi com esse objetivo que o psiquiatra e educador Gustavo Teixeira, especialista em inclusão escolar, escreveu o "Manual do Autismo - Guia dos Pais para o tratamento completo".
Com o mesmo didatismo de seus lançamentos anteriores - "Desatentos e Hiperativos", "Manual Antidrogas", "Manual Antibullying", "O reizinho da casa" e "Manual dos transtornos escolares" - , o médico volta agora sua atenção para o que vem se tornando um dos maiores problemas de saúde pública do mundo. Com uma linguagem simples e utilizando-se de exemplos de casos clínicos, o livro é um guia para pais perdidos sob o impacto de um recente diagnóstico, além de professores, que receberão cada vez mais esses alunos em suas classes.
Se é fato que os pediatras no Brasil ainda não estão preparados para identificar o autismo em bebês – outro assunto tratado no livro –, o Manual do Autismo procura ajudar o leitor, seja uma mãe, um pai, uma avó ou um professor, a confiar nos próprios instintos e agir. Com a certeza de que o diagnóstico precoce pode fazer uma grande diferença na vida dessa criança.
Por que é tão importante que o diagnóstico do autismo seja feito o mais cedo possível?
Todos os estudos científicos nos mostram que temos "janelas de oportunidade" para o tratamento. Isso significa que se esperarmos para agir, perderemos chances ímpares de promover a melhora desse paciente. O ideal é que o diagnóstico ocorra até os 2 anos de idade, pois desta forma podemos iniciar a estimulação precoce.
Como está a questão do diagnóstico precoce no Brasil?
Infelizmente as notícias são ruins. Para se ter uma ideia do tamanho do problema, a idade média de diagnóstico de autismo no Brasil são 8 anos de idade. Parte do problema é o total desconhecimento do tema por médicos pediatras. As mães normalmente são as primeiras a observar que algo de errado está ocorrendo com seus filhos e, infelizmente, não é raro elas escutarem dos médicos pediatras: "Ele tem o tempo dele, ele é mais lento". Mas existem marcos evolutivos importantes que precisam ser respeitados e conhecidos. Na presença de sinais de atraso no desenvolvimento de uma criança, ela precisa ser cuidadosamente avaliada para ter a oportunidade de um tratamento precoce.
Qual seria o seu primeiro conselho aos pais quando eles recebem o diagnóstico de autismo de seu filho?
Primeiramente, que eles saibam que existem tratamentos e podemos conquistar muitos ganhos. Que tirem todas suas dúvidas com o médico que acompanha a criança e peçam orientação completa sobre o plano individual de tratamento, que deve ser montado. Que leiam materiais psicoeducacionais de qualidade. O livro “Manual do Autismo” foi escrito exatamente para esse pai ou mãe que se encontram perdidos nesse momento de medo, ansiedade, preocupações e angústias.
Como seria uma relação produtiva entre pais e profissionais enquanto trabalham para ajudar uma criança com autismo?
O trabalho precisa ser interdisciplinar. Devido à complexidade do transtorno do espectro autista e dos diferentes prejuízos sociais, acadêmicos e sensoriais envolvidos, diversos profissionais precisarão trabalhar com a criança e com os pais. Cada caso é um caso e o plano individual de tratamento deve ser criado pelo médico especialista e todos os profissionais devem se comunicar constantemente para acompanhar a evolução da criança. São inúmeras as possibilidades terapêuticas e no livro eu listo as 15 principais intervenções de tratamento para o autismo.
O senhor acredita que as percepções sensoriais de uma pessoa com autismo são desorganizadas?
Sim, muitas vezes questões sensoriais envolvendo os cinco sentidos estão envolvidas no transtorno do espectro autista. A criança pode apresentar dificuldade com a textura de alimentos, roupas, ou ficar excessivamente incomodadas por um toque, por exemplo. Odores, barulhos ou luzes podem incomodar ou trazer o interesse especial da criança para esse estímulo sensorial. Desta forma, a terapia de estimulação sensorial pode ajudar muito.
Como pais e professores podem propiciar um ambiente estimulante para a aprendizagem de crianças com autismo?
O primeiro passo é conhecer o problema, estudar sobre o transtorno. O segundo passo é reunir escola com a equipe terapêutica para traçar um plano de metas para a vida acadêmica e social da criança. Um plano individual de educação deve ser montado e a terapeuta cognitivo-comportamental ajudará nesse processo. Em alguns casos, a criança necessitará de um mediador escolar, que será capacitado e orientado por essa terapeuta.
Como podemos preparar crianças com autismo para se tornarem adultos independentes e produtivos?
Primeiramente, precisamos ter uma expectativa realista do problema. Pacientes graves talvez não tenham uma vida independente, mas a intervenção precoce possibilita inúmeros ganhos na redução de sintomas, ganho de alguma autonomia e qualidade de vida. Casos mais leves de transtorno do espectro autista têm prognóstico melhor e quando estimulados precocemente podem evoluir muito e apresentar uma vida produtiva, incluindo estudos e trabalho.
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