Bernhard Schlink
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"Mentiras de verão", de Bernhard Schlink
Por Mariana Moreno
A honestidade e a sinceridade permanecem unânimes como atributos admiráveis, mas mesmo o mais idôneo dos seres humanos está intrinsecamente ligado à complexidade de sua natureza que muitas vezes o lança em uma rede de omissões, meias verdades e mentiras. Mentiras brancas, mentiras danosas, mentiras por amor ou pela falta dele. E talvez a pior delas: a mentira que contamos a nós mesmos.
Autor do best-seller “O leitor”, um dos mais aclamados romances da Alemanha dos últimos tempos, Bernard Schlink apresenta em “Mentiras de verão” sete contos que mostram como lidamos com as ilusões e os enganos da vida. As tramas expõem as minúcias das relações conjugais, os desafios da convivência em família e o estranhamento, tanto em relação àqueles que nos são próximos quanto aos que foram um dia ou que até então eram desconhecidos.
Um homem repleto de dúvidas é protagonista do conto “A noite em Baden Baden”. Há anos em um relacionamento estável, mas muitas vezes distante (geográfica e emocionalmente), ele tem algumas aventuras amorosas que também não fazem com que ele se sinta plenamente feliz. A dificuldade de reconhecer a felicidade está igualmente em “O último verão”, que conta a história de um senhor com uma doença terminal. Ele mentiu sobre sua felicidade durante várias fases da vida, apesar de achar que tinha todos os ingredientes para alcançá-la. Ironicamente, foi na falta de saúde que ele finalmente a encontrou quando decidiu passar o verão com toda sua família.
A maior parte dos contos é carregada de certa melancolia por tratar exatamente da vida cotidiana e de suas miudezas. No entanto, duas histórias trazem um componente de suspense e ansiedade. Em uma delas, um pai começa a mentir compulsivamente para “proteger” sua família e na outra um homem relata um crime para um desconhecido no avião, que se vê sendo cúmplice de uma história que ele nunca saberá se é verdade.
De todos os contos, talvez um dos mais impactantes seja “A viagem para sul”. A protagonista é uma senhora que afirma ter parado de amar os filhos. Em uma viagem com a neta, ela visita as lembranças de sua juventude e deixa a sensação de que seu casamento e toda sua vida a partir dele não passaram de uma encenação.
"Mentiras de verão" é um livro com um olhar profundo sobre as verdades e ilusões humanas que mostra personagens incrivelmente verossímeis justamente por suas ambivalências.
Trecho do conto “O último verão”
“Confessar a si mesmo que estava infeliz naquela época em Nova York não seria ruim caso isso não levasse à confissão seguinte. Ao retornar de Nova York, ele conheceu uma mulher num acidente; os dois trombaram com as bicicletas, quando andavam de maneira descuidada- ele considerava um belo modo de se conhecer. Durante dois anos se encontraram, foram à ópera, ao teatro e saíram pra jantar, algumas vezes chegaram até a viajar por alguns dias, e volta e meia ela passava a noite na casa dele ou ele na casa dela. Ele a considerava suficientemente bonita e suficientemente inteligente, gostava de tocá-la e ser tocado por ela, e pensava que finalmente tinha chegado lá. Mas, quando ela se mudou por causa da profissão, o relacionamento rapidamente se tornou cansativo e terminou. Apenas então ele aceitou estar aliviado. Que já havia achado os dois primeiros anos cansativos. Que muitas vezes teria ficado feliz se tivesse permanecido em casa, lendo e escutando música, em de vez encontrá-la. Ele a encontrava porque pensava, outra vez, que possuía todos os ingredientes para a felicidade e que tinha de ser feliz.”
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