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Neto de Mandela revela lado humano do líder sul-africano
Ndaba conheceu o avô, Nelson Mandela, aos 7 anos quando ele ainda se encontrava preso. Com a relação de seu pai, o filho de Madiba, e sua mãe indo de mal a pior, o menino deixou o bairro natal de Soweto para viver com o avô. Sem compreender bem a distância emocional do pai e da mãe, Ndaba se tornou um adolescente rebelde e pouco empenhado nos estudos. Ganhou de uma tia um exemplar de O alquimista, de Paulo Coelho, que se tornou o primeiro livro que ele leu até o fim, encantado com a história do peregrino. Precisou fazer o vestibular duas vezes para entrar na faculdade para cursar Relações Internacionais, mas, como relata em A trilha percorrida (Ed. BestSeller), uma das grandes lições do poder da diplomacia teve com o próprio avô por ocasião da invasão dos Estados Unidos ao Iraque.
Confira abaixo o trecho em que Ndaba Mandela relata o episódio:
“No final de 2002, o então presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, havia basicamente mandado às favas o Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU). Ele afirmou que o Iraque estava desenvolvendo armas de destruição em massa (ADMs) e usou isso como justificativa para iniciar uma invasão em grande escala no Iraque, embora os inspetores do Conselho de Segurança da ONU dissessem que não havia nenhuma evidência de que o Iraque possuía ADMs. O secretário-geral das Nações Unidas na época era Kofi Atta Annan, um diplomata de Gana. O Velho levou isso para um lado muito pessoal.
Ele disse:
— Eu me pergunto se Bush achou mais fácil ignorar as Nações Unidas porque o atual secretário-geral é um homem africano.
— Vovô, se eles invadirem, isso significará que os Estados Unidos e o Reino Unido, porque é Blair também, não são mais aliados da África do Sul?
— Os Estados Unidos da América são um grande país. Nós temos muitos, muitos amigos lá e no Reino Unido, mas sejamos realistas: os Estados Unidos cometeram atrocidades e nunca demonstraram um pingo de arrependimento por isso. Pense nas bombas atômicas em Hiroshima e Nagasaki. Ndaba, para quem você acha que aquelas bombas realmente eram?
— Para a União Soviética.
— Sim! A intenção era dizer: “Ei, vejam o que acontece se você tem objetivos contrários aos nossos.” Eles são muito arrogantes... não o povo, mas o governo... e matariam pessoas inocentes para demonstrar seu poder para o resto do mundo.
Em janeiro de 2003, Madiba fez declarações na TV nacional e no rádio, e um discurso inflamado para o Fórum Internacional das Mulheres. Ele estava zangado e não se conteve. Quando assisti ao discurso no YouTube, vi o pugilista nele se manifestar. O quebrador de pedras. O defensor da liberdade.
— George Bush e Tony Blair estão solapando uma ideia apoiada por seus predecessores — disse Madiba. — Eles não se importam. É porque agora o secretário-geral das Nações Unidas é um homem negro?
O grande público aplaudiu.
— Eles nunca fizeram isso quando os secretários-gerais eram brancos. Qual é a lição que tiramos de eles agirem fora das Nações Unidas? Estão dizendo que qualquer país que acredite que não será capaz de obter apoio dos outros países está autorizado a agir fora das Nações Unidas e ignorá-la? Ou estão dizendo ”Nós, os Estados Unidos da América, somos o único superpoder no mundo agora. Podemos agir como quisermos”? Eles estão dizendo que isso é uma lição que deveríamos aprender? Ou estão dizendo “Somos especiais. O que fazemos não deveria ser feito por ninguém”?
Ele apresentou sua teoria sobre Nagasaki e Hiroshima, e praticamente afrontou George W. Bush.
— Quem são eles agora para bancar a polícia do mundo? O que estou condenando é que esse poder nas mãos de um presidente que não tem visão e é incapaz de pensar corretamente está agora prestes a mergulhar o mundo em um holocausto. E eu estou feliz por as pessoas do mundo, especialmente as dos Estados Unidos da América, estarem se levantando e se opondo a seu próprio presidente. Espero que essa oposição um dia o faça entender que ele cometeu o maior erro de sua vida tentando promover uma carnificina e policiar o mundo sem nenhuma tutela do organismo internacional.
Isso é algo que devemos condenar sem pensar duas vezes.
No dia seguinte, o discurso estava em toda a internet. Naturalmente as manchetes ressaltavam os comentários mais duros, mas o Velho não se importou. Não se arrependia de nenhuma palavra. Ele me disse que George H. W. Bush — o ex-presidente, pai de George W. — lhe telefonou naquela noite.
— O que ele disse? — perguntei.
— Ah, ele me pediu de um modo muito civilizado: “Por favor, Sr. Mandela, não diga mais coisas ruins sobre meu filho.”
— E o que você disse?
— Eu respondi: ”Não se preocupe com isso. Eu disse o que queria. Isso é tudo que tenho a dizer sobre o assunto.”
Já tendo sido alvo da fúria do Velho, quase senti pena de ambos os Bush”.
Embaixador do projeto Equiano Stories, Ndaba Mandela mantém vivo o legado do avô, Nelson Mandela, promovendo esperança e transmitindo a mensagem revolucionária de que uma única pessoa é capaz de fazer a diferença. Ndaba é cofundador da Africa Rising, uma fundação sem fins lucrativos dedicada a promover uma imagem positiva do continente africano pelo mundo, fomentar o crescimento da educação, e criar estratégias para o desenvolvimento de empregos e da formação de alianças internacionais. Ndaba vive na África do Sul.
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