
O posfácio da nova edição de A cidade assassinada, de Antonio Callado, é seguramente uma das últimas contribuições do dramaturgo José Celso Martinez, morto no dia 6 de julho. Com sua irreverência e jeito particular de articular referências, o fundador do Teatro Oficina revisita o contexto em que a obra de Callado foi publicado. A peça é fruto de uma homenagem ofocial da então capital federal, o Rio de Janeiro, aos quatrocentos anos da cidade de São Paulo. Os organizadores não contavam com tamanha ironia por parte de Callado, como explica o já saudoso Zé Celso no texto intitulado "Antonio Callado y a criação do Teat(r)o da Tragédia Colonial Brazyleira em
A cidade assassinada".
"Em 1954, a Alta Burguesia retorna à sua Cultura de São Paulo Separatista da Revolução de 32, mas com grandes obras: cria o parque Ibirapuera, Y, na praça em frente, Brecheret esculpe
As bandeiras e a dedica aos 400 anos da Epopeia dos Bandeirantes. A cidade quatrocentona premia-se neste $eu Aniversário: 400 Anos da Capital dos Capitai$.
O Rio de Janeiro, então capital do Brasil, convida oficialmente o intelectual, jornalista, romancista, dramaturgo Antonio Callado, aos 37 anos, a escrever uma peça de teatro para comemorar o 4º centenário de $P. Callado cumpriu inteiramente seu contrato. A peça foi encenada no Theatro Municipal do Rio de Janeiro, com apoio do Tesouro Nacional, bancando a Companhia Nacional de Teatro, q encenou a peça. Callado, Requintado, Perverso, em vez de comemorar os quatrocentões, escancara, ao vivo nos três atos em cena, o pecado original, o sangue fresco q pariu São Paulo. Explicitamente
São Paulo é mostrada como a
assassina de
A cidade assassinada: de Santo André y de seu alcaide-mor, o bandeirante João Ramalho. O sagrado padre Anchieta é revelado como o comandante desse ato criminoso Tendo como primeiras armas seus autos de teatro de cristianização indígena.
Nos primeiros 60 anos do Brasil, bandeirantes de São Paulo, de Santo André, de Porto Ferreira, enfim, do Sul do Brasil, conquistavam terras y caçavam indígenas.
Padre Anchieta, dramaturgo, criava os autos para fazer lavagem cerebral nos indígenas, serviço completo cabeça y corpo: cancelar o selvagem da antropofagia, y oferecer-se à jesusfagia com a rodelinha de trigo, branquinha, a hóstia divina cristã.
Padre Anchieta, em São Paulo, inicia a guerra religiosa de extermínio a Santo André. Sua primeira arma é um auto de teatro em q ataca grosseiramente seu vilão, João Ramalho. Antonio Callado, como Shakespeare, revela o primeiro round do conflito através do teatro: um “auto teatral” de Anchieta atacando explicitamente João Ramalho, alcaide de Santo André.
O AUTO é representado por quatro indígenas catequizados audaciosamente e apresentado na própria casa do alcaide.
A convite de Rosa, filha de João Ramalho Pai Apaixonado, Incestuoso y Amante.
O protagonista criado por Callado, alcaide-mor da cidade de Santo André, é uma personagem fascinante, herói maldito do Teatro da Crueldade, q vive até hoje no Brasil, mas na época com phalas trans-eloquentes, maldade majestosa, fervor divinamente diabólico y engraçadíssimo, vive na ponta da língua de um revólver na mão, revelando a língua do sadismo trágico de Bandeirante-Mor.
O Grande Ator FREGOLENTE! GIGANTE de atuação! Protagonizou JOÃO RAMALHO, “The BANDEIRANTE”.
COM BRILHO.
Lascivo, incestuoso apaixonado pela filha, Rosa Bernarda filha da indígena Bartira.
Callado apaixona-se por suas personagens teatralizando com palavras afiadas na lâmina do Teatro da Crueldade.
É inacrê! Mas a personagem de bandeirante foi sempre muito cultuada, até na Semana de Arte Moderna de 22.
Mas hoje as estátuas dos bandeirantes estão todas ameaçadas de serem derrubadas em SP.
Callado cria a Primeira Grand Personagem de “O” Bandeirante, o Primeiro, o “Original.”
O dos 60 anos após a Invasão dos Portugueses na chamada DesCoberta do Brasil.
Cria a alma insana, mas grandiosamente teatral, da personagem do Grande TragiKômico
João Ramalho.
Callado phala a língua do Teat(r)o Brazileiro Épico Cruel, das Entranhas do Brazil Passado y Presente até Hoje na anunciada comemoração golpista de 7 de setembro de 1999, um ano antes dos 200 da nossa “Independência: Ainda a Ser Conquistada”.
Callado criou um arquétipo vivo de Bandeirante: João Ramalho, de língua suja mas de phoder. Sua boca cospe falas sarcásticas de um satyro palhaço, um demônio eloquente na gozação diabólica q aumenta o poder balístico dos seus canhões na ereção da sua de cidade de Santo André. “Terra feita de esterco e sangue de indígena.” A cenografia é a praça retangular da
cidade assassinada de Santo André: no seu Centro: o
pelourinho pra torturar os indígenas q não se deixavam escravizar.
É um totem colonial. Sua existência pressupõe o reconhecimento oficial da metrópole portuguesa à cidade colonizada.
São Paulo não tinha pelourinho, deseja então o phalos de pedra de Santo André, q tinha a coroa portuguesa em cima.
Callado demonstra q a metrópole portuguesa mesmo vê do ponto de vista estratégico o planAlto de São Paulo, mais apta para enfrentar as ameaças de invasão eminente da França Antártica no Rio de Janeiro, com indígenas da Confederação dos Tamoios.
Do Lado Leste
a igreja,
Do Lado Oeste
a cadeia
Na Base Sul a
larga casa de João Ramalho com uma
lareira q nas cenas noturnas libera labaredas rubroamarélas: cria um palco enorme y avermelhando, o
sangue das cenas, como indica Callado.
Durante toda a peça, o conflito maior é entre o Diabo João Ramalho
versus Deus padre Anchieta. Este personagem SombraViva, Determinante, só vai surgir no palco no fim do terceiro ato.
Mas presente em toda tragédia através de seus emissários como antagonista do bandeirante. Santo ideólogo parteiro da cidade de São Paulo. Nessa tragédia colonial santo Anchieta toma o papel de liderar o extermínio de Santo André = a
cidade assassinada.
Assim juntariam-se os povos de
João Ramalho, os de Anchieta em São Paulo, para vencerem a investida dos franceses aliados dos Tamoios.
No segundo ato, o grande suspense. A persona de João Ramalho fecha as portas da cidade y declara guerra a São Paulo. Em vez de ir ao encontro bélico com Anchieta, permanece na espera demorada da presença do inimigo Anchieta em Santo André.
Callado prepara um suspense de uma espera tensa, quase insuportável de seu antagonista, q pretende visitá-lo no terceiro ato – Ramalho phala sem parar no jesuíta assassino da cidade. O encontro entre os dois é o clímax da peça. Callado então dá o golpe de dramaturgya.
Muito se espera da cena do encontro dos dois super-heróis inimigos da peça.
Mas não vou dar, claro, spoiler na sua leitura, leitor. Mas prepare-se.
Termino com a felicidade guerreira de 10 mil indígenas de vários povos do Brasil
Lutando in Braz-Ilha para derrubar o Marco Temporal.
João Ramalistas recusam-se ao direito dos indígenas depois da a Constituição de 1988 de admitir novas demarcações de terras sagradas indígenas.
A estrutura colonial neocapitalista bandeirante, nestes dias q escrevo, prepara um golpe. Como não desejo y como repudio este Fim de Mundo, agradeço o trabalhão q me deu escrever sobre esta peça, pois me fez sentir como nunca, em 2021: a pressão do Teatro da Violência Colonial aqui y agora q quer não só a Cidade, mas a Nação Brasil, Assassinada.
Graças Antonio, o Callado!
Sua peça acorda pra perigo trágico eminente.
Pero no pasarán".
Zé Celso
Que essa peça seja posta em cena. Teria imenso prazer sádico em assistir pra chorar y rir muito no fracasso dos golpistas.
SAMPÃ. PARAÍSO – 29 de agosto de 2021.