No panorama da literatura brasileira atual, Alberto Mussa é um autor na contramão. Entre seus personagens há apostadores do jogo do bicho, entidades do candomblé, piratas, grumetes em direção às Índias, selvagens sanguinários do século V, pajés da Ilha do Marajó de antes do descobrimento e o primeiro homem a preparar a infusão que denominamos café. Suas tramas passeiam por lugares e temas tão díspares quanto o Andaraí dos anos 70, as Cruzadas, o Quilombo dos Palmares, a baixada de Jacarepaguá nos tempos da Colônia, o interior de um romance de Machado de Assis, as origens da língua árabe.
Um universo caudaloso e arrebatador, que alia ficção e historiografia. Ou melhor: ficção e uma forma singular de encarar o registro historiográfico, já que Mussa persegue, em suas criações, as múltiplas tramas, pontos de vista e possibilidades narrativas ocultas pelas versões hegemônicas da História. É o que mostra este Os contos completos, fruto da premissa de que, “de todas as espécies de narrativa, o conto é a única verdadeiramente universal”, como afirma o autor, na entrevista abaixo.
Alberto Mussa nasceu no Rio de Janeiro, em 1961. Sua ficção abarca o conto e o romance, com destaque para o “Compêndio Mítico do Rio de Janeiro”, série de cinco novelas policiais, uma para cada século da história carioca. Recriou a mitologia dos antigos tupinambás; traduziu a poesia árabe pré-islâmica; escreveu, com Luiz Antônio Simas, uma história do samba de enredo; e organizou, com Stéphane Chao, o “Atlas universal do conto”. Entre outras distinções, ganhou os prêmios Casa de Las Américas, o de Ficção, da Academia Brasileira de Letras, o Machado de Assis (duas vezes), da Biblioteca Nacional, e o da APCA (também duas vezes). Seu romance mais recente, “A primeira história do mundo”, foi um dos vencedores do Oceanos 2015. Sua obra está hoje publicada em 17 países e 14 idiomas.
Reescrever foi a força motriz que gerou ‘Os contos completos’, indica a nota que abre o volume. O que o incita a reescrever?
A primeira decisão, na verdade, foi parar de escrever contos. Tinha concebido um projeto de fazer cinco novelas policiais, o ‘Compêndio Mítico do Rio de Janeiro’, e outro ciclo, com um número de romances ainda indefinido, que vai se chamar ‘A Biblioteca Elementar’, inspirada mais nas minhas experiências de carioca da Zona Norte. Como passei a ter um volume muito grande de romances meio rascunhados a serem escritos, resolvi que seriam meus últimos projetos literários. Vou parar de escrever ficção quando completar esses dois ciclos. Neles, tudo o que tenho a dizer, ficcionalmente, estará dito. Daí ter encerrado a produção dos contos e decidido publicar ‘Os Contos Completos’. Reescrever esses contos foi apenas a consequência de ter sido obrigado, antes, a relê-los. Porque cada leitura é única, nunca se repete. Reescrever, portanto, é a consequência de reler.
Por que parar de escrever ficção? Se toda história pode ser recriada diversas vezes, como perceber o ponto em que 'tudo o que se tem a dizer está dito'?
Porque só vale recriar se há algo novo a dizer. Falei acima numa diferença que percebo entre criar uma história e narrar uma história. Acho impossível criar, porque todas as histórias possíveis já existem; mas acredito na capacidade de se narrar com originalidade. Mas esse exercício só vale a pena se o narrador tem algo a dizer, tem algo a acrescentar à história que ele conta. Pode até ser que eu venha no futuro a ter outras coisas a dizer. Por ora, tenho seis rascunhos de romances. São os que vou escrever. Se não surgir mais nenhuma ideia, é hora de parar.
Este novo livro abrange grande parte de sua obra literária, então o trabalho foi colossal. Podemos falar num método?
Para ‘Os Contos Completos’, não. Apenas compilei e reescrevi, dando novo arranjo. Mas tenho um método de trabalho. Toda a minha ficção é planejada. Primeiro eu penso naquilo que quero dizer, na mensagem profunda, em forma abstrata. Que tem geralmente origem num problema de mitologia. E a partir disso vou imaginar o ambiente, as personagens, a forma que o enredo irá ter. Depois começo a estruturar a narrativa, o que vai ser dito primeiro, o que será dito depois e etc. Faço um esquema da história, seja conto ou romance. Só escrevo mesmo, de verdade, depois que todo o projeto está montado.
Sua obra tem forte relação com os mitos e a ideia de que toda escritura é, na verdade, recriação. O que não abole o inesperado, o extraordinário, o traiçoeiro. Nesse recente mergulho por sua obra completa, o que você próprio encontrou de inesperado?
Inesperado é perceber que, a partir de um argumento, eu poderia ter escrito muitas histórias diferentes. Perceber que cada conto permite ser recriado de várias outras formas, ou perspectivas. Perceber que é sempre possível reescrever.
Houve algum reencontro mais perturbador no trabalho de passar em revista suas histórias? Qual desses reencontros e reescrituras foi mais desafiador?
Não diria perturbador (porque escrevo de manhã, com prazer e alegria), mas desafiador foi, sem dúvida. Certamente a reescrita dos textos mais antigos, porque o tempo transforma os indivíduos. O ‘Elegbara’, por isso, sofreu as maiores transformações. Não sou hoje a mesma pessoa, o mesmo ‘ser’ de 1997.
A pergunta é batida, mas inevitável. Qual sua relação com o conto ou narrativa curta? Como esse gênero o influenciou e influencia?
De todas as espécies de narrativa, o conto é a única verdadeiramente universal. Aliás, a primeira espécie de ficção em prosa surgiu no Antigo Egito, há 2.500 anos; e veio na forma de um livro de contos. As antologias de contos é que me permitiram o acesso às literaturas mundiais. Conheci os grandes autores do mundo muito mais pelos contos do que pelos romances ou gêneros similares. O mérito maior do conto é, precisamente, a concisão. Sempre fui um contista. Comecei a escrever novelas expandindo contos, pondo contos dentro de contos. Meu primeiro romance é feito de contos que incluem contos. Continuo fazendo hoje exatamente a mesma coisa. Minhas maiores influências (na literatura stricto sensu) são os contos de Bioy Casares e de Borges; e os contos e romances (que são feixes de contos) de Machado de Assis.
Há algum tempo você tomou a decisão de diminuir consideravelmente a vastíssima biblioteca que mantinha em casa. É verdade que esse processo o aproximou ainda mais das narrativas curtas? Por quê?
Talvez porque prefira, antes de tudo, o mito. E o mito se caracteriza por ter o máximo de conteúdo com um mínimo de expressão. Por isso, para mim, o mito é o gênero narrativo por excelência. Na literatura, em sentido estrito, nas manifestações escritas da narrativa, é o conto que faz o papel do mito. O romance, na verdade, é o gênero da redundância e da repetição. Numa limpeza de estantes, é natural que saiam mais romances que coletâneas de contos. É uma questão de fita métrica.
A parceria entre erudição e cultura popular tem sido uma das características mais comentadas a respeito de sua obra e, também, de sua biografia. Por que esse enlace pode soar tão desconcertante? Existe mesmo o erudito e o popular?
Só pode soar desconcertante quando as pessoas fazem distinção entre erudito e popular. É uma ideia colonial, intrinsecamente racista, me parece. Não consigo, racionalmente, perceber a diferença. A ‘Ilíada’, por exemplo, é um poema compilado de narrativas orais de rapsodos anônimos, populares. Shakespeare era autor de teatro popular. Dante optou por escrever em italiano, em vez do latim, para ser lido pelo povo comum. Werther foi um fenômeno de vendas e de suicídios. Os grandes romances do século 19, como ‘Moby Dick’, ‘Crime e Castigo’ ou ‘Os Três Mosqueteiros’ são profundamente populares. Por outro lado, que coisa pode ser mais sofisticada que um samba de Geraldo Pereira? Ou de Noel Rosa? Formalmente, tecnicamente, não vejo distinção. Erudito e popular são categorias derivadas do evolucionismo racial e do arianismo, que passaram a interessar a certas classes econômica e intelectualmente dominantes.
Escrivaninha e rua convivem em harmonia ou as duas eventualmente se estranham?
São, de fato, duas forças opostas, antagônicas, como na novela de Stevenson, ‘O médico e o monstro’. Vivo tentando equilibrar, ponderar, anular o conflito, mas já percebi que é impossível. Tenho uma dupla natureza. Os Orixás de cabeça que me foram dados, Logunedé e Xoroquê, também têm natureza dupla. Meu Sol está em Câncer e a Lua em Capricórnio. Sou um homem dividido. Meu medo é que uma dessas metades morra antes da outra.
'Não acredito, na verdade, no conceito de autoria', diz você, na nota que abre este novo livro. No que diz respeito à literatura, em quê você acredita?
Acredito na arte de narrar, mas não na de criar. O Homem pode criar tecnologias, como o arco-e-flecha, o cachimbo e o guarda-chuva, mas não cria histórias. As histórias, todas elas, são preexistentes ao Homem. O romance-ícone da moderna literatura ocidental, por exemplo, é precisamente o ‘Ulisses’, do Joyce, que não passa de uma cópia adaptada de um poema épico. O nosso romance-ícone da modernidade é o ‘Macunaíma’, outra cópia adaptada de mitos indígenas. E cópias adaptadas podem ser até muito melhores que os originais.
Alberto Mussa é um personagem marcante no cenário literário atual. O matemático que virou escritor, o erudito que compõe sambas-enredo e capoeiras, o filólogo autodidata, o brasileiro que traduziu ‘Os poemas suspensos’, o menino que moldou seu imaginário numa feira livre do Grajaú. O cara que pode ser visto pelas ruas do Rio discorrendo sobre mitologia ameríndia, de bermudas e sandália de dedo, com um copo de cerveja na mão. Quantas facetas tem Alberto Mussa? Quais delas têm sobressaído, e quais estão escondidas?
Se se parte de um conceito mais geral, de que a espécie humana produz uma forma particular de cultura, e que essa cultura apenas se subdivide pelas diversas línguas que a humanidade emprega, toda essa diversidade desaparece. Romance, conto, samba de enredo, mitologia, capoeira, poesia, lendas da feira-livre ou de qualquer lugar — tudo isso pertence à linguagem, que é sobretudo humana e apenas se reparte em função das línguas em que se expressa. Só isso. Tenho interesse pelo conjunto da humanidade, em especial pelas humanidades que estão distantes de mim, no tempo e no espaço. Isso incluiu as línguas diferentes da minha. A única particularidade, minha terrível particularidade, é a cerveja gelada.










