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Editora Record +5

"Presos que menstruam", de Nana Queiroz

26/10/2015
"Presos que menstruam", de Nana Queiroz
Por Cláudia Lamego  

Em 2010, Nana Queiroz começou a apuração, sem ainda o saber, do que viria a ser o seu primeiro livro. Ao todo, entre visitas a mais de dez presídios femininos em todas as regiões do Brasil, o trabalho voluntário numa instituição carcerária e entrevistas com mais de cem pessoas - entre presas, especialistas e familiares - foram quatro anos pesquisando e produzindo Presos que menstruam.

Relato da vida de muitas mulheres na prisão, anônimas e famosas, o livro traz histórias que traçam o retrato dos problemas e desafios do sistema prisional feminino no país. A gravidez durante o cárcere, a presença de bebês nas prisões, o tratamento dispensado às famílias durante as visitas, a solidão e o abandono das mulheres pelos maridos, as celas despreparadas para as necessidades fisiológicas das mulheres, as torturas físicas e psicológicas, a comida estragada, a proibição de visitas íntimas das parceiras homossexuais. Dramas que surgem nas falas e na observação da vida de personagens diversas, envolvidas em crimes passionais, de tráfico ou de roubo.

Leia entrevista com a autora, que é jornalista, ativista pelos direitos das mulheres e uma das criadoras da revista digital Azmina. Trabalhou em diversas publicações, como Correio Braziliense, Época, Galileu e Veja. É colunista do Brasil Post e fundadora do Movimento Eu Não Mereço Ser Estuprada, contra a culpabilização das vítimas de estupro, que ganhou repercussão internacional.

Como surgiu a ideia de fazer um livro sobre as mulheres nos presídios femininos do Brasil?

Fiquei instigada ao longo de jantares com uma mulher incrível chamada Rosália Naves, que dedicou a vida ao trabalho com presas. Ela era uma fonte em ebulição de histórias impressionantes e de partir o coração. Depois de algum tempo, me ofereci como voluntária da FUNAP, fundação de amparo ao preso onde ela trabalhava, e comecei a visitar presídios e coletar minhas próprias histórias. Eu ainda estava concluindo a graduação, era 2010, e aproveitei para fazer do tema meu trabalho de conclusão de curso. A universidade acabou, mas o interesse não.

Quanto tempo durou a produção da obra, entre as primeiras entrevistas, viagens e a escrita?

A apuração começou em 2010 e segui com ela durante os 4 anos seguintes. O assunto me fascinava e a realidade dos presídios merecia uma denúncia urgente. De São Paulo, passei a migrar para presídios de outros estados, pagando as viagens por conta própria, usando feriados e férias, conhecendo pessoas, me infiltrando entre parentes de presas, me oferecendo a trabalhos. O acesso ao sistema carcerário no Brasil é muito difícil e o governo faz o que pode para manter suas violações de direitos humanos longe dos olhos do público. Mas eu estava decidida e insistia em cada visita por meses se fosse necessário. Para denunciar os abusos que via, criei um blog. Meu marido ficou encantado com a maneira com que apresentava os relatos dessas mulheres e resolveu mandar meu trabalho para a editora Record. Quando a editora topou publicá-lo, a apuração estava praticamente completa, faltava apenas escrever e atualizar dados.

Quantos presídios você visitou e quantas pessoas entrevistou, entre presas, familiares e especialistas?

Visitei mais de dez presídios em todas as regiões do Brasil e perdi a conta do número de mulheres com quem falei. Mais de 50, sem dúvidas, e um número de familiares quase equivalente. Especialistas devem ter sido ao menos 20, além de funcionários, livros, relatórios e pesquisas. Não é fácil coletar informações sobre o sistema carcerário feminino pois quase ninguém pesquisa o tema. Muito teve que ser coletado do zero, com visitas in loco e pesquisas qualitativas com dezenas de pessoas.

Esse é um livro de não-ficção, mas a forma como você dividiu os capítulos fisga o leitor, deixando sempre uma história por contar mais à frente, aguçando a curiosidade e causando uma certa empatia de quem está lendo pelas personagens. Mas, o leitor é trazido à tona quando você dá alguns detalhes sobre o que pode ser a verdadeira história daquelas presas, já que há versões contraditórias para os crimes. Como equilibrar esse envolvimento, que você mesma diz que aconteceu com as fontes, e a necessidade de ser objetiva e fornecer o máximo de informação para o leitor?

Eu sou da opinião que bons livros reportagem precisam ser fluidos e gostosos de ler. Não vejo porque uma boa história deveria ser contada de maneira burocrática e pesada só porque aconteceu de verdade. Bom jornalismo se aproxima dos romances e fisga o leitor e foi isso o que busquei fazer. Também adoto uma posição, talvez um tanto polêmica, de que emoções deviam fazer parte do relato jornalístico, afinal, as emoções fazem parte da realidade e toda história contada sem elas seria capenga.

Meu dilema emocional diante das mulheres que conheci está bem claro no livro, pois achei que devia essa honestidade ao leitor. Tentei buscar uma maneira de apresentar pontos de vista distintos e dados frios separando-os de minha opinião pessoal. Existe uma presa no livro em cuja inocência eu realmente acredito, mas optei por não contar isso ao leitor, por exemplo, e deixar que ele tirasse suas próprias conclusões.

Ler os processos de minhas entrevistadas foi também muito importante para conhecer o outro lado, o da vítima e do promotor, e fiz o possível para apresentar as duas versões com igual riqueza de detalhes.

Nas histórias das personagens, identificamos vários tipos de problemas e desafios do sistema prisional feminino no país. A gravidez durante o cárcere, a presença de bebês nas prisões, o tratamento dispensado às famílias durante as visitas, a solidão e o abandono das mulheres pelos maridos, as celas despreparadas para as necessidades fisiológicas das mulheres, as torturas psicológicas no presídio que parece mais asseado que outros, a comida estragada, a proibição de visitas íntimas das parceiras lésbicas, entre outras. Teve uma pauta antes ou eles foram surgindo e compondo esse retrato? Chegou a descartar muitas histórias?

A verdade é que eu tentava fazer minhas visitas sem ideias pré-formadas e entrevistava especialistas sobre as coisas que via depois. Assim eu entrava com um olhar novo, sem enviesamento para ver X ou Y. Algumas situações, principalmente relacionadas a bebês e tortura de grávidas, me surpreendiam e chocavam de tal maneira que eu tinha que chegar em casa e dar uma boa chorada.

Todos esses problemas do livro são muito reais e palpáveis. Não são coisas que ouvi falar, são realidades que toquei e que me tocaram. Todas as pessoas entrevistadas estão no livro de alguma maneira. Se não por nome, com alguma informação que me deram ou por serem comprovantes das estatísticas que eu corroborava. As histórias em si, infelizmente, começam a ficar repetitivas depois de um tempo, principalmente as de mulheres muito pobres, negras ou pardas, que fugindo de violência doméstica, precisavam apelar ao tráfico para sustentar os filhos sozinhas.

Qual a importância de um livro como esse, já que a sociedade e a imprensa costumam olhar para os presídios apenas quando há notícias sobre presas famosas, como a Suzane von Richthofen e a Anna Carolina Jatobá, presa por assassinar a enteada Isabela Nardoni, entre outras?

Esse livro não é apenas uma denúncia, mas pretende aquecer o coração das pessoas quanto a essas mulheres. Richthofens e Nardonis são absolutas exceções no sistema carcerário feminino e a imensa maioria das mulheres ali seria incapaz de atos de violência deste tipo. As mulheres presas no Brasil são a empregada doméstica que você pagava muito mal há alguns anos, a moça do cafezinho que foi demitida ou a menina que passa suas compras no caixa do supermercado e ganha um salário mínimo. São gente pobre e sofrida que nós, enquanto sociedade, poderíamos manter fora da cadeia se apenas tivéssemos um pouquinho mais de senso de justiça social. Alguns vão chamar esse meu ponto de vista de socialista. Eu chamo de algo ainda mais revolucionário: justiça social.

Você manteve contato com as presas? Esse trabalho terá algum desdobramento, como um filme, documentário?

Eu procurei saber de algumas delas e até troquei emails com uma assim que saiu em liberdade, mas o contato próximo foi sempre muito difícil. Duas cineastas muito talentosas recentemente ganharam um edital para produzir um curta metragem baseado no livro. Claro que se alguém quiser investir para transforma-lo em longa, receberemos de braços abertos!