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Brasil: Cazuza Renato Russo e a transição democrática +3

Que país é este, Brasil?!

25/03/2016
Que país é este, Brasil?!
Por Mario Luis Grangeia Em entrevista aos 29 anos, Renato Russo definiu “Que país é este” não como uma pergunta-título, mas como um título com uma exclamação. O líder da Legião Urbana, que neste domingo de Páscoa chegaria a 56 anos, exclamava à época que a resposta sobre este país partiria de quem vivia nele. No encarte do LP homônimo, ele lamentara que a questão do título continuasse atual mesmo nove anos depois da criação da letra, nos idos de 1978. Ao fim deste verão, o país voltou a ser “piada no exterior” após a revista americana Americas Quartely lançar o quiz online Did It Happen in Brazil or “House of Cards”? (“Ocorreu no Brasil ou em ‘House of Cards’?” – para quem não sabe, a série narra a escalada ao poder de um político sui generis, Frank Underwood). Dias depois, o jornal alemão Die Zeit viu mais intriga na nossa política do que naquela série, e o perfil de “House of Cards” no Twitter exibiu um sorriso do protagonista, dizendo assistir ao noticiário brasileiro. Antes, um tuíte ali já ironizara: “In brazilian portuguese, they don't say ‘impeachment’, they say ‘se inspirar no Francis Underwood’ and i think that's beautiful” (Em português do Brasil, eles não dizem “impeachment”, dizem “se inspirar no Francis Underwood” e acho isso bonito). Se entendesse o português das notícias daqui, Underwood certamente consideraria a questão-exclamação do hit lançado em 1987. Afinal, o que dizer do relato de que a dona de uma cadela foi hostilizada por levá-la para a praça com um lencinho vermelho no pescoço? Ou que uma atriz e escritora foi atacada na internet por seu texto sobre o feminismo que discorda de campanhas anti fiu fiu, entre outras ideias? Como se vê, há algo de podre nesta república federativa, e os odores desagradáveis vão muito além do eixo Brasília-Curitiba. O Brasil de hoje se parece com o de ontem bem mais do que à primeira vista. Como na revista americana, proponho aqui um quiz com dez itens (trechos de letras, neste caso). A questão é singela: “Que país é este: o vivido por Renato Russo ou o vivido por Renatos Duques?”:
  1. “sujeira pra todo lado/ ninguém respeita a Constituição/ mas todos acreditam no futuro da nação”;
  2. “quem é o inimigo?/ Quem é você?/ Nos defendemos tanto sem saber/ Por que lutar”;
  3. “em vez de luz tem tiroteio no fim do túnel./ Sempre mais do mesmo”;
  4. “ladrão pra roubar, marginal pra matar/ papai, eu quero ser policial quando eu crescer”;
  5. “quando querem transformar/ esperança em maldição:/ é o bem contra o mal/ e você de que lado está?”;
  6. “toda hipocrisia e toda a indiferença/ vamos celebrar epidemias:/ é a festa da torcida campeã”;
  7. “não entendia como a vida funcionava –/ Discriminação por causa da sua classe ou sua cor”;
  8. “há tempos o encanto está ausente/ e há ferrugem nos sorrisos”;
  9. “e a matilha suja de crianças no meio da rua –/ música urbana”; e
  10. “e nossa estória, não estará pelo avesso/ assim, sem final feliz./ Teremos coisas bonitas para contar”.
Como quase tudo na vida, este quiz carece de um gabarito. Quaisquer sejam as respostas dadas, é desconcertante constatar que exclamações e questionamentos sobre intolerâncias e outras mazelas de ontem ainda tenham vez hoje. Quando se poderia pensar que ficaram para trás constrangimentos – quando não algo pior – pela cor de uma roupa, uma crença ou orientação sexual, ressurgem com novos contornos condutas e reações já deploráveis no passado. Oxalá um dia se confirme a previsão em forma de versos de outro ícone da música brasileira que teve fim precoce: “o Brasil vai ensinar o mundo/ a arte de viver sem guerra/ e, apesar de tudo, ser alegre/ respeitar o seu irmão”. Infelizmente, porém, parece ainda distante a previsão de Cazuza, também um ativista da tolerância, que hoje teria ainda mais motivos para se cansar de tanta babaquice, caretice e outras “ices”.   (Crédito imagem: Ricardo Junqueira / www.renatorusso.com.br)