Civilização Brasileira
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"Transportes: História, crises e caminhos", de Vicente de Britto Pereira
Vicente de Britto Pereira venceu a categoria Engenharias, Tecnologias e Informática do prêmio Jabuti com o livro "Transportes: História, crises e caminhos". Foi uma das três vitórias da editora Civilização Brasileira, que teve livros vencedores ainda em Ciências Humanas ("O Brasil colonial", em 1º lugar) e em Biografia ("Francisco Julião – Uma biografia", em 3º lugar).
Engenheiro dedicado ao planejamento de transportes desde a década de 1960, Vicente havia estreado na literatura com "Ensaios sobre a embriaguez", lançado pela Record em 2013, no qual fazia uma abordagem mais filosófica sobre a dependência alcoólica. Em "Transportes - História, crises e caminhos", ele analisa a gênese, o desenvolvimento, as dificuldades, as crises e as tentativas de soluções do setor no Brasil. Em um país de grande extensão territorial, a locomoção é um fator essencial para a sua existência e “Transportes” é o mais completo tratado sobre o setor. Fundamental para se entender os desafios enfrentados nos dias de hoje, como os baixos níveis de produtividade da economia brasileira, a obra se firma como referência importante para futuros estudos. Trata-se de “uma análise sistêmica e abrangente do setor de transportes desde a colonização até os recentes pacotes de privatização do governo atual, com discussões acerca dos principais problemas”, como define o autor.
“Transportes - História, crises e caminhos” preenche uma lacuna para se entender o desenvolvimento econômico do país. Quando surgiu a ideia de escrever a obra?
A ideia de escrever “Transportes...” estava de certa forma latente já há alguns anos, especialmente quanto mais se aproximava a marca de cinquenta anos de formado em engenharia, com uma dedicação significativa ao setor transportes. Ao longo de minha vida profissional, especialmente como consultor na área de planejamento de transportes, havia escrito diversos relatórios de projetos, além de ter publicado vários artigos, mas tinha o desejo de escrever algo mais completo e consistente, como uma forma de legado. Alguns fatos me levaram a concretizar este projeto. Em 2012, fui convidado a dar uma palestra no IBRE (Instituto Brasileiro de Economia), da Fundação Getulio Vargas, sobre o setor rodoviário e decidi escrever um texto de suporte para a tal apresentação. Acabou sendo um embrião do livro, mas que tinha que ser expandido para os demais meios de transportes. De outro lado, a discussão acerca da necessidade do incremento da produtividade da economia brasileira assumiu um primeiro plano, com especial referência a indispensável participação do setor transportes naquele sentido, para a qual achei que tinha a contribuir através de uma visão mais abrangente das que normalmente eram apresentadas sobre esta questão.
A obra abrange os transportes no Brasil desde o tempo colonial até os dias de hoje. Utilizando uma palavra da moda, um dos "gargalos" que freiam o desenvolvimento do país é justamente o setor de transportes. Na perspectiva histórica, para entender o que acontece nos dias atuais deve-se ter em conta as decisões tomadas ou que deixaram de ser tomadas nas décadas anteriores. Como você estruturou o livro para que o leitor compreenda a evolução das demandas do setor?
Na realidade, o livro aborda a principal infraestrutura econômica para um país com nossas dimensões, com determinadas características geográficas e físicas, e que teve uma colonização e povoamento específicos. Assim, o livro foi estruturado tentando entender estes atributos iniciais e a partir daí acompanhar os principais ciclos econômicos e as políticas públicas que foram sendo adotadas ao longo do tempo, que nos conduziram à atual situação de crise nos sistemas de transportes existentes. Como entender a atual configuração de nossa matriz de transportes sem levar em conta todos estes fatores: seria praticamente impossível. Tomemos como exemplo o caso do transporte hidroviário, que para grande parte dos países se constituiu no primeiro sistema de transportes de maior capacidade, antes, portanto, do advento da ferrovia. Tivemos condições extremamente desfavoráveis; os melhores sistemas em termos de aproveitamento (Amazônia e Prata) descolados das áreas de colonização e situados nas fronteiras do país; barreiras físicas da Serra do Mar, levando nossos principais rios a correrem para o interior, porém com necessidades grandes de transposição, e isto em nossas áreas de produção mais promissoras. Desta forma, procurei no livro salientar estes aspectos juntamente com os demais aspectos relativos a políticas especificas do setor.
Sobre os prognósticos, qual o papel dos atores públicos e privados para construir uma política de transportes mais eficiente?
Verifica-se atualmente que as participações dos setores público e privado na oferta de infraestrutura e na movimentação de mercadorias são bastante expressivas e fundamentais. Entretanto, para tornar este arranjo institucional eficiente, que varia para cada um dos subsetores de transportes, existe a necessidade de se discutir e implementar uma política nacional de transportes, que inexiste no país há várias décadas, contemplando os diversos meios de transportes e os principais atores envolvidos de modo a aumentar a eficiência do conjunto.
Nas rodovias, com o aumento do número das concessões pelo Governo Federal, você diz que estados e municípios serão os principais responsáveis pela expansão da malha nos próximos anos. Se não há um planejamento digno nem programas de financiamento específicos – e ainda tendo em conta que o limite da dívida pública está próximo do teto em alguns dos casos – é correto concluir que os investimentos em novas estradas serão mínimos se não houver novos planos de desenvolvimento?
Há muito tempo venho afirmando que um dos principais problemas do setor rodoviário é o desconhecimento real do setor, e a marginalização total nas análises que são feitas dos segmentos estaduais e municipais de nossa extensa malha rodoviária nacional. A atuação do governo federal quanto à oferta de infraestrutura rodoviária é limitada como também os processos de concessão ao setor privado, que a meu juízo já passaram do limite razoável, se baseados nos modelos de parcerias atualmente praticados. Complemento aqui a resposta anterior, através desta questão especifica, com a necessidade de uma política nacional de transportes, que estabeleça condições de financiamento adequadas àquelas instâncias de modo a aumentar o investimento público em rodovias com a observação de que os recursos que atualmente são utilizados pelo BNDES e demais fundos para subsidiar as concessões poderão ser dirigidos naquele sentido.
Você fez parte do Geipot (Grupo Executivo de Integração da Política de Transportes), criado em 1965. Qual a importância do órgão e o que acarretou com sua extinção?
Entrei no GEIPOT em 1965 como o primeiro engenheiro contratado após concurso realizado para a montagem de uma equipe nacional para acompanhar os estudos que seriam desenvolvidos por consultores internacionais selecionados pelo Banco Mundial, para a realização de um completo diagnóstico de setor transportes brasileiro. Os efeitos destas primeiras fases foram enormes com a capacitação de equipes especializadas em planejamento de transportes que além de aparelharem o setor público, deram origem às mais conceituadas empresas de consultoria privada nesta área. Após a transformação daquele grupo executivo na Empresa Brasileira de Planejamento de Transportes, foi consolidado e aperfeiçoado o nível de uma equipe técnica voltada para esta área com conseqüências positivas para a administração pública federal e altamente relevante para os segmentos estaduais e municipais através de seus projetos e convênios. A extinção do GEIPOT fez parte de um processo de esvaziamento da importância do setor transportes.
Você não aborda o transporte de passageiros. Qual a razão? Há a intenção de fazer isso no futuro?
Infelizmente não me foi possível abordar a questão do transporte de passageiros, inclusive pelo gigantismo do esforço que seria necessário realizar.
Depois de lançar "Ensaios sobre a embriaguez", no qual você se debruça sobre o histórico da dependência alcoólica de forma mais filosófica, neste investe em tema bem diferente, propondo um debate sobre os desafios do setor de transportes. Você tem planos para outra obra o futuro? Você pensa, por exemplo, em se enveredar pela ficção?
Estou atualmente desenvolvendo e escrevendo novo livro com o titulo provisório de “Ensaios Pós-Embriaguez” onde retorno a alguns pontos que ficaram pouco desenvolvidos no primeiro livro.
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