"Welcome to Copacabana", de Edney Silvestre
13/06/2016
Por Manoela Sawitzki
Sua produção literária tem sido intensa desde a estreia, premiada, como escritor em 2009, com o romance Se eu fechar os olhos agora, vencedor do Jabuti e do São Paulo de Literatura, ambos em 2010. De lá para cá, Edney Silvestre já publicou outros três romances, entre eles, Boa noite a todos, dividido em novela, peça e ensaio, num exercício dramatúrgico e num deslizamento entre gêneros raro na literatura brasileira. Agora, o autor surpreende mais uma vez ao revelar excelência em outra seara, a dos contos.
Em Welcome to Copacabana & outras histórias, ele mostra a rara capacidade de transitar entre as calçadas de Copacabana, as do subúrbio e as do centro da cidade com a mesma desenvoltura com que leva seus personagens aos bulevares de Paris, Roma, Nova York e até a Jordânia. Com olhar arguto, retrata com propriedade desde intelectuais, políticos e gente da alta sociedade até meninos de rua, putas, travestis e gente de vida ordinária, como o professor que dá aula para alunos medíocres e não se apaixona por ninguém. Mas é Regina, personagem do primeiro e de outros dois contos, inclusive o que fecha a seleção, que se sobressai como uma espécie de fio condutor de suas histórias.
O livro é composto por 20 contos, divididos entre “No Rio”, “Além do Rio” e “De volta ao Rio”. Segundo o autor, na entrevista abaixo, ele surgiu há uns quatro anos enquanto escrevia Boa noite a todos e a personagem principal, numa mirada na janela, vislumbrava Copacabana – o bairro por onde circulam turistas, putas, pivetes, aposentados, donas de casa, ex-misses, ministros, operários e todo o complexo universo que compõe o bairro mais cosmopolita e surpreendente do Rio e, consequentemente, do Brasil.
Sua produção literária tem sido intensa desde a estreia como escritor em 2009, com o romance Se eu fechar os olhos. De lá para cá, já foram publicados outros três romances, e, agora, o volume de contos Welcome to Copacabana & outras histórias. Sete anos anos, cinco livros. Há escritores que dizem ter uma reserva de ideias e temas que ficam latentes, à espera, mesmo enquanto ainda estão escrevendo um livro. Tem sido o seu caso?
Enquanto escrevia Welcome to Copacabana & outras histórias eu anotava e pesquisava para o romance que estou compondo. Parte das ideias para o novo livro já me tinham vindo enquanto eu fechava a versão final de Boa noite a todos. Que eu tinha começado junto com Vidas provisórias. A trama inicial de A felicidade é fácil existia enquanto eu escrevia Se eu fechar os olhos agora. Minha cabeça fervilha.
Quando um escritor se desloca de um gênero literário para outro, depois de ter frequentado um deles por algum tempo, é comum que ouça perguntas sobre as dificuldades dessa transição. Boa noite a todos traz um exercício dramatúrgico e um deslizamento entre gêneros dentro do mesmo livro. Agora é a vez de narrativas curtas. Você considera a questão sobre as dificuldades e desafios válida, ou seja, que há um desafio especial ao se deslocar de uma forma para outra? O que mais lhe parece desafiador ao iniciar e construir um novo livro?
Concordo completamente. E busco esse desafio. Não me interessa escrever nas mesmas trilhas que percorri antes – embora personagens de um livro acabem aparecendo em outro, como Paulo (de Se eu fechar os olhos agora) e Barbara (de A felicidade é fácil) foram para Vidas provisórias e, quatro décadas depois, tiveram suas existências interconectadas, de alguma forma. Silvio, que morreu no final de Vidas provisórias, volta – jovem, na Nova York do início dos anos 1990 – em uma das tramas de Welcome to Copacabana & outras histórias. Meu maior desafio ao iniciar um livro é me deixar levar pelos personagens e, não, querer conduzi-los aonde me parece que eles deveriam ir.
O livro é composto por 20 contos, divididos entre “No Rio”, “Além do Rio” e “De volta ao Rio”. Você pode falar sobre o processo de escrita dessas narrativas e a divisão que sua estrutura propõe?
O livro surgiu há uns quatro anos, quando Maggie (de Boa noite a todos) vai à janela do hotel em Copacabana onde de hospedou na intenção de se matar e vê os carros de quem volta para casa – algo que ela nunca mais poderá fazer. Aquele, vejo hoje, foi o clique para o surgimento de Regina, mais uma das pessoas anônimas que poderiam estar circulando pelo calçadão, rodeada por putas, pivetes, aposentados, donas de casa, ex-misses, ministros, todo o complexo universo que compõe o bairro mais cosmopolita e surpreendente do Rio e, consequentemente, do Brasil.
Havia, porém, tramas que, mesmo tendo alguma ligação com a cidade e o bairro (como “Silvio trabalha”, por exemplo), desenrolavam-se em outras cidades e continentes. Tinham, porém, em comum, a virada de cabeça para baixo do que sucede à personagem Regina, do conto inicial. Ou ao professor que se muda (para o centro da cidade) e ali descobre que alguns amores valem mais que o universo. Ou à operária de Berlim, que chega à quase santidade ao cometer um crime talvez considerado hediondo por muitos. Ou ao location scout na Jordânia, ao conhecer uma mulher exilada de seu país e de si mesma.
Muitos dos personagens desse livro passam por experiências radicais de violência, situações-limite que forçam movimentos extremos. Forma-se ali uma constelação de desafortunados, estrangeiros à deriva, sobreviventes de mundos em dissolução. O que nessas vozes lhe convoca?
Estrangeiros somos todos, estejamos onde estivermos. Daí a epígrafe do Drummond. Sinto mais agudamente que outros escritores brasileiros, talvez, porque sou “de fora” desde muito cedo, vim para o Rio quando ainda não tinha dezesseis anos, senti demais o distanciamento que existe entre os “nativos” e os “de fora”, embora o carioca dê a impressão de grande afabilidade. Em Nova York, onde vivi doze anos, o sentimento de não-pertencer é ainda mais profundo e aqueles que não dominam a língua são forçados a isolamento dentro de seus guetos, eufemisticamente chamados de “comunidades”. Fui testemunha lá, como sou aqui, dos altos muros que separam os desafortunados do restante do mundo. Sobre isso, creio, sobre esses estrangeiros, venho construindo minha obra.
Sobre a quase santidade que advém da precariedade mais aguda, de que você falou... Há neste livro convocações para realidades especialmente duras, em que mergulhamos no nonsense do real que é inadmissível, como na história do menino de “Ben que olhava o trem”. Para dar conta desse menino (enquanto o país se divide sobre a questão da redução da maioridade penal, aliás) foi preciso ir do hiper-realismo ao fantástico. Faço, aqui, uma ponte com Genet, que falou tanto do amor, da beleza e de uma santidade possível entre criminosos. Trata-se, no seu caso, de um desejo de redenção?
Sem dúvida nenhuma. Bacana você pensar em Genet, que não me tinha ocorrido. Mas há, sim, a santidade desta criatura sem recursos intelectuais, sem capacidade de fala, suja, descalça, metida com um bando de pivetes (igualmente citados no conto inicial e em “O universo não vale o teu amor”), menosprezado pela sociedade “normal”, tal como seus colegas, mas que possui a capacidade de operar milagres. Levei um ano e alguns meses escrevendo e reescrevendo “Ben que olhava o trem”, até achar o ritmo da narração adequada. A mulher do conto “Me tirem daqui”, antes, nos tempos de paz, delicada e refinada, agora humilhada diariamente na cidade destruída pela guerra e ocupada pelos inimigos, que incendeia o marido e a amante, igualmente atinge algum tipo de santidade, depois de expurgar o mal, no caso externo. Ben não tem maldade, nem bondade. Ele, simplesmente, é.
Pode falar um pouco sobre o conto futurista “Zak” e a distopia ali presente?
Nossos tempos são tempos de destruição e ruína, sem que nada possamos fazer se Putin ou Obama continuam batendo com o pau na mesa, para provar que o seu (deles) é maior, enquanto bombardeiam e arrasam civilizações milenares no Iraque, na Síria, por todo o mundo. As fábricas de automóveis continuam produzindo veículos que destroem o ar que respiramos, jogando sobre nós a balela dos futuros veículos mais “limpos”, as indústrias de plástico entopem o planeta com seu criminoso produto poluidor e ainda têm o desplante de jogar para nós, consumidores, a responsabilidade de reciclar aquela merda? Nós? Porque não param de fabricar, voltam ao vidro, que é naturalmente reaproveitável? Há um abismo cada vez maior entre os que têm e os que não têm. Governos populistas enfiam tevês e carros pela goela dos povos, fazendo dos eleitores consumidores, não fazendo deles cidadãos. Já há uma clara separação entre os que podem consultar médicos qualificados, comprar remédios, operar-se com os melhores cirurgiões, fazer tratamentos em hospitais de altíssima qualidade, e os outros. Os que vão para as filas. Os que vão para a frente das guerras. Os que perdem a saúde em empregos insalubres. Assim é, com lentes extremas, no futuro onde Zak atua. Um futuro bem próximo.
Como é o hoje sua relação com a cidade do Rio de Janeiro? O jornalismo tem lhe levado para incontáveis lugares, mas esse livro enfoca o Rio de uma forma bastante particular, muita além da velha (ultrapassada?) versão da cidade maravilhosa.
Entre idas e vindas, estou no Rio há quatro décadas. Acompanhei e venho acompanhando tantas transformações na cidade que pareço às vezes chegar a outro planeta. Copacabana, hoje, seguramente é muitíssimo diferente daquela que conheci nos anos 1960/70. Maravilhosa esta cidade nunca foi – e sempre foi, na imaginação de tantos, pelo Brasil e mundo afora. Copacabana e o Rio sempre foram cenários de miséria humana, roubalheira, violência. Não olho o Rio sob tintas da nostalgia, que fazem da cidade uma deliciosa utopia. Não era. Não é. Nunca será. Porque nenhum lugar do mundo é, para quem tem olhos abertos. Mas... que cidade deslumbrante, é o Rio. Não me canso de me espantar com tanta beleza. E isso a faz especial: tanta beleza e tanta miséria reunidas.
Há enredos e personagens neste livro que surgiram nessas andanças, num fluxo do jornalista para o escritor?
As crianças de “Ben que olhava o trem” são as que via – e vejo, continuo vendo, cada vem em maior número – pelas ruas do Rio, do Recife, de Belém, de tantos lugares a que minha profissão de jornalista me leva. A personagem feminina de “Uma mulher no exílio” foi diretamente inspirada por uma ativista que tive oportunidade de conhecer e conviver na Jordânia. O location scout Hargreaves é daquelas pessoas que circulam pelos hotéis de lugares inusitados por onde passei e aparentado, em sua recusa de envolver-se com o mundo, com Mathieu Molinari, outro errante, do conto “Gbakanda Hotel”. Convivi com tantos imigrantes ilegais como o de “Silvio trabalha” e o Vicente de “Noite no Texas” que perdi a conta.
Uma das histórias atravessa as fronteiras das divisões do livro. Há, portanto, um caminho a percorrer com a viúva Regina. Os temas da perda, da solidão e da passagem para a velhice aparecem com força nessa sequência de contos. E ali está Copacabana, que também envelheceu. Ela seria uma espécie de síntese da grande cidade decadente?
É uma percepção muito sensível esta sua, Manoela. Regina, cuja vida é virada de ponta cabeça, deveria deixar-se sepultar após a morte de Sérgio, enterrada naquele quarto-e-sala de Copacabana, e deixar-se morrer. Afinal, como lhe dizem os filhos, tem “uma certa idade” e se sentiria melhor entre seus pares, os moribundos solitários dos restaurante a quilo do bairro. Mas há algo nela que recusa esse fim. Para isso, porém, ele terá que abandonar seus conceitos, sua vida inteira de bom comportamento, seus preconceitos, até mesmo a noção do que pode ser um afeto, do que pode ser um amor – mesmo que por apenas algumas horas, na carona da moto de um entregador de restaurante japonês.










